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O armistício

Um dos acontecimentos marcantes do ano de 1918 foi o do Armistício. Às 12,55 de 11 de Novembro, começa o cessar-fogo na frente ocidental. O armistício com o império Austro-Húngaro fora assinado a 6, com a Alemanha, a 11.
Em Versalhes, em 18 de Janeiro de 1919, inicia-se a Conferência de Paz, que vai alterar profundamente o mapa político da Europa, com o desmembramento dos impérios e o triunfo das democracias. A Alemanha, responsabilizada pela guerra, sofre pesadas sanções: perde as colónias, a Alsácia-Lorena regressa à França, paga indemnizações de guerra aos países aliados, sofre igualmente a desmilitarização. O tratado de Versalhes é assinado em 28 de Junho desse ano.
Em Portugal, as notícias chegam à imprensa, nesse mesmo dia 11, pelo telégrafo. A notícia espalha-se pelo país. Em Torres Novas, a 12 de Novembro, «promovida pelo Sr. Joaquim Alexandre Inácio em honra dos países aliados, celebrando essa paz tão ansiosamente esperada, saiu terça-feira, 12 do corrente, à noite, do Teatro Virgínia uma grande manifestação que acompanhada da banda do Montepio e por indivíduos que empunhavam archotes levava após si uma multidão compacta do digno proletariado torrejano.
Tomando pela rua Alexandre Herculano, sempre no meio de vivas estrondosas aos países aliados, à paz, ao Sr. Sidónio Pais e as diversas personalidades políticas já depostas, parou o cortejo em frente da casa do digno e benquisto administrador do concelho, Sr. Tomás Gonçalves.
A banda executou a Portuguesa, foguetes estralejavam no ar coalhado de nuvens negras e como esta importante autoridade não comparecesse à janela da sua habitação, devido à ausência, seguiu o cortejo pela Levada em direcção à Escola de Equitação. Aí, a guarda opôs-se à invasão do quartel, medida rigorosamente executada com acerto pelo ilustre capitão Sr. Azambuja,
que agradeceu a manifestação grandiosa que lhe foi feita, finda a qual agradeceu em nome do Comandante da Escola de Equitação, Sr. tenente-coronel Carmona os rasgos elogiosos que os manifestantes dirigiam ao heróico exército português.
Infelizmente, motivado por vivas adversas ao presente governo que indivíduos impróprios duma tal manifestação soltaram, suscitaram-se vários conflitos que o bom senso duma parte ordeira dos manifestantes pôs cobro.
A alegria em todo o concelho é manifesta e em todos os rostos transparece já a aurora duma felicidade desejada tão ansiosamente: A PAZ.
Publicado este texto no primeiro número do semanário O Almonda, de 24/11, revela-nos, na sua ambiguidade, que a manifestação foi de antemão programada, talvez pela direcção da banda do Montepio, ou por alguns dos seus músicos mais intervenientes e activos entre o operariado torrejano, que se opunham francamente à intervenção de Portugal na guerra. A Banda Operária tinha mudado para o Montepio de Nossa Senhora da Nazaré, ameaçada de dissolução pela administração da Fábrica. Mudança que é concretizada em Julho, quando na Assembleia-Geral de 19, o Montepio nomeia membros da sua direcção para a da Banda que passa a denominar-se Banda do Montepio de Nossa Senhora da Nazaré. Entre aqueles, encontramos Joaquim Alexandre Inácio, que vai ser durante anos, uma figura incontornável a quem aquela deve a sua existência.
João Carlos Lopes, num estudo publicado em 2013, As Sete Vidas da Banda Operária, analisa a história da banda, que em 1921, no dia 1 de Maio, volta a ser Banda Operária Torrejana. Por acção de alguns dos seus músicos mais politizados e intervencionistas no sindicalismo proletário.
Mas, não é só o operariado e o povo que se manifestam favoravelmente ao fim da guerra. Os corpos administrativos também o fazem. A Comissão Municipal, reunida a 14 de Novembro, também o faz. A acta de sessão revela que «o presidente (Dr. João Martins de Azevedo) propõe e a comissão aprovou por unanimidade que atendendo à importância do assunto sobre o qual convergem neste momento as atenções do mundo inteiro, a vitória das nações aliadas, se limitasse esta sessão a consignar no acto o júbilo que em todos os povos se manifesta pela vitória das tropas aliadas em luta pelo Direito e pela Justiça, contra esse poder nefasto que desde sempre julgou triunfar, usando de todos os processos, ainda os mais condenáveis, perante as leis da humanidade – a Força.
Que consequentemente se dirija ao Chefe do Estado um telegrama de congratulação, conforme segue: “Excelentíssimo Presidente da República.
A Comissão Municipal do Concelho de Torres Novas associando-se publicamente às ca- lorosas e cordiais congratulações de todo o País pela brilhante vitória das nações aliadas, saúda na pessoa de v. Exª as nossas forças de terra e mar que tão galhardamente colaboraram para tão feliz resultado, fazendo votos para que a Paz, que não deve tardar, traga para a nossa querida Pátria a paz interna e as prosperidades que tanto carece”»
O estudo da correspondência da Administração do Concelho permite, a quem se interessar, um levantamento da mobilização da juventude da época, possibilitando uma investigação que importa sobre ela concretizar.
antoniomario45@gmail.com

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