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Uma Paixão de Cristo Torrejana

A Paixão de Cristo é um dos momentos mais marcantes do calendário litúrgico cristão. O seu objectivo passa por relembrar os últimos dias de Jesus Cristo na terra e o seu grande amor pelos homens. Que O levaria à magnânima dádiva de sacrificar-se para a redenção da Humanidade. Esta prova incondicional de amor do filho de Deus é há muito motivo, por parte de alguns conceituados artistas, para a criação de magníficas obras sacras em Seu louvor (vale a pena aqui referir o sublime nome de Johann Sebastian Bach, nascido a 21 de Março de 1685, em Eisenach). Desde o campo das belas artes e da música, passando pela literatura e cinema, o número de testemunhos artísticos da gratidão dos homens é digno de referência. O seu início remonta aos primórdios da cristandade e acompanhará os homens até ao fim dos tempos. Num humilde gesto de homenagem e reconhecimento ao grande Amor e Compaixão que Jesus Cristo tem por nós. Nesta linha de glorificação ao Senhor também se inscreve a obra do torrejano Estevão de Cristo (1540(?)-1613): “Liber Passionum et eorum quae a dominica in palmis, isqie ad vesperas Sabbathi sancti… …,”Simão Lopes, Lisboa, 1595.
Acerca do autor o primeiro volume da “Biblioteca Lusitana” revela-nos alguns pormenores da sua vida: “Natural da vila de Torres Novas do arcebispado de Lisboa, [Frei Estevão de Cristo foi] religioso professo da Ordem Militar de Cristo no Real Convento de Tomar, célebre professor da arte do Contraponto [seria chamado] a Madrid pelo Capelão-Mor D. Jorge de Almeida [Ataíde] para que ordenasse, e acentuasse pela Cantoria da Capela do Papa as Paixões que a igreja canta na Semana Santa o que executou com tanta satisfação daquele Prelado que o persuadiu a que as imprimisse” (MACHADO, Diogo Barbosa; “Biblioteca Lusitana…”, Tomo I, Oficina António Isidoro da Fonseca, Lisboa Ocidental, MDCCXXXXI, pág. 754). Esta chamada à capital espanhola resultou do superior agrado que provocara a música do nosso conterrâneo no monarca Filipe I (segundo de Espanha), durante a sua estadia no Convento de Cristo, em Tomar (GUIMARÃES, Vieira, “A Ordem de Cristo” Empresa da História de Portugal, Lisboa, MDCCCCI, pág. 239). Discutível é a afirmação de que Frei Estevão de Cristo dirigiu a sua obra conforme a tradição papal (Artur Gonçalves, na sua obra
“Torrejanos Ilustres” (pág. 413), cai nesse erro). Nas notas introdutórias que acompanham o “Liber Passionum” não constam dados que confirmem a execução dentro do estilo da “Cantoria da Capela Papal”. Além disso, o citado livro de Estevão de Cristo demarca-se da tradição romana. Na procura de uma linha polifónica marcadamente nacional (CARDOSO, José Maria Pedrosa, “O Canto da Paixão nos Séculos XVI e XVII: A Singularidade Portuguesa”, Editora Imprensa da Universidade de Coimbra, 2006). O livro das Paixões é dedicado pelo autor torrejano “ao Bispo Conde”, D. Afonso de Castelo Branco (1522-1615), pretendendo com a sua obra “limar e reformar o Acento dos ofícios da Semana Santa”. A vasta experiência de Frei Estevão de Cristo ao serviço do Coro permitiu-lhe encontrar um caminho próprio na arte musical, que de modo algum poderia esconder dos homens. Assim o exigiam as “obrigatórias leis da caridade” e o facto de ter de prestar contas pelo “talento que Deus lhe deu”. Na nota introdutória, denominada“ O Actor aos Músicos Curiosos”, o torrejano ilustre diz-nos ter executado um novo
trabalho fruto da sua reordenação do livro das Paixões do polifonista Manuel Cardoso (?- a. 1595), “acrescentando algumas coisas necessárias e concernentes aos ofícios daquela semana que no [de Manuel Cardoso] não havia. E nessas e nas mais que ele tinha algumas vezes acrescentando, outras diminuindo.” Como nos ditos de Cristo, em que Estevão de Cristo introduziu “pontos novos”. De modo a que as palavras “saiam mais vagarosas que os do outro texto [Manuel Cardoso] ”. Numa aproximação ao estilo da “toada antiga”. O livro de Fr. Estevão de Cristo receberia do prestigiado polifonista Duarte Lobo uma entusiástica aprovação, considerando-o “muito bom e digno de se imprimir, para se comunicar em toda a parte destes Reinos de Portugal, porque [era] muito proveitoso ao estado Eclesiástico”. O “Liber Passionum” abre com os versos “Gloria, laus & honor tibi fit rex Christe…” para serem cantados na altura da bênção dos ramos e consequente procissão. No núcleo principal do livro encontramos o texto litúr
gico da Semana Santa com as Paixões do evangelista São Mateus (ff. 1-15v) – para ser cantada no Domingo de Ramos, de São Marcos (ff. 16-27v) – na Terça-feira Santa, de São Lucas (ff. 28-39v) – na Quarta-feira Santa e de São João – na Sexta-feira Santa (ff. 55v.-65). A complementar Frei Estevão de Cristo introduziu na obra as “Orações Solenes e Adoração na Cruz” (ff. 65-74), as “Lições de Matinas de 5ª e 6ª Feiras Santas” (ff. 40-55) e as “Lições de Sábado Santo” (ff. 74v-81), o “Pregão Pascal Exultet e outras peças” (ff. 81-86) a fim de serem executadas ao longo do ano litúrgico. O passionário do torrejano ilustre teria uma enorme repercussão na sua época. Principalmente durante a Semana Santa. Altura em que nas igrejas, com o recurso a três tenores (diáconos) e coro, se faziam sentir e ouvir o peculiar tom melódico e espiritual da sua visão dos últimos dias de Jesus Cristo na terra. Numa clara demonstração de fé da alma portuguesa.
(Texto escrito com a antiga ortografia)

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