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O poder da cruz vem do amor

No final da quaresma e aproximação da Páscoa a cruz ganha maior relevo na vida das comunidades. Vias-sacras, procissões relacionadas com o percurso do Calvário e outras tradições piedade popular despertam adesão emocionada de muitos fiéis. Falam da dor humana, mostram a humilhação de Jesus, a debilidade de Deus. Porque são tão veneradas estas imagens de sofrimento, porque lhes são
tão apegadas as pessoas? Apetece virar o rosto para não ver a crueza dos dramas que exprimem. No entanto, somos exortados a elevar os nossos olhos para a cruz, a contemplar o Senhor no seu cruel sofrimento. Que tem de fascinante ou de didático? A verdade é que são o momento supremo da vida de Jesus, “a sua hora” como lhe chama, em que vive o mistério pascal entregando-se à morte por nós e vencendo o pecado e a morte, ressuscitando. Ao mesmo tempo manifesta a profunda solidariedade com as nossas dores e fragilidades, assumindo-as, dando-lhes sentido e iluminando-as. Só um Deus que sofre pode compreender e ajudar-nos no nosso sofrimento. Na realidade, ao longo da sua vida histórica, Jesus está sempre próximo dos sofredores, curando-os, integrando-os e erguendo-os para retomar o caminho.
Além do profundo significado religioso, as imagens da paixão do Senhor revestem um valor humano muito rico pois constituem retratos da vida real. Em todos os tempos, para muita gente, a vida é um mar de sofrimento. São as guerras, é a violência e a opressão, mesmo no seio das famílias, é a doença e o luto, são as inúmeras provações. Realmente, as pessoas revêm-se no Senhor com a cruz às costas. Por isso, o povo crente conserva e persevera na veneração e participação nestas expressões da vida dolorosa do Senhor. Ele carregou o sofrimento da humanidade e continua presente, como Cireneu, a acompanhar e a consolar, os que no seu sofrimento, a Ele recorrem. No Evangelho de São João, a cruz é a manifestação surpreendente do amor de Deus. Deus amou de tal modo o mundo que lhe entregou o seu Filho Unigénito. Jesus, o Filho,
partilha do mesmo projeto e vo- luntariamente se entrega por nós: “Não há maior prova de amor do que dar a vida”. Pela sua entrega, Jesus transforma o significado da cruz: em vez de instrumento de suplício, torna-se manifestação do amor redentor, da misericórdia sem limites. O suplício da cruz, entendido à luz da ressurreição, é um caminho e uma fonte de vida. Nesta perspetiva, na Páscoa enfeitamos a cruz com verdura e flores para mostrar que da cruz renasce a vida para ser comunicada ao mundo inteiro. Associada à Ressurreição, à Ascensão e à Vinda do Espírito Santo, a cruz é também a glorificação de Jesus. O amor reabilita a cruz. Fixar os olhos em Jesus é interiorizar este amor e entregar-se a “Ele que me amou e se entregou por mim” (Gal 2,20). O amor vence a morte. Configurar-se com Cristo na entrega da vida é participar também na vida nova da Sua ressurreição.

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