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Equívocos em torno de um livro proibido pela censura

Retomemos novamente o desabafo de Júlio de Sousa e Costa sobre o cobarde assassínio do rei D. Carlos e as suas explicações do porquê da sua prisão e da censura ao livro: “(…) Nessa ocasião na sala estavam três ou quatro monárquicos, e os restantes, talvez uns oito ou dez, militantes nas fileiras republicanas. Estigmatizei o crime com energia e com calor, o que me valeu depois censuras estúpidas. Fui sempre republicano, é certo, mas nunca ingressei nas falanges, nas tais que sempre mereceram a minha reprovação. Instado para me filiar no partido democrático, recusei-me e sofri perseguições da parte dessa gente. Em 1911, tinha 34 anos, vi logo que se ia por um caminho mau. Tenho a hombridade de dizer que essa República que está para aí, não preencheu, não preenche, nem jamais preencherá, o desejo da minha alma que deseja Justiça, Paz e Liberdade!.. Quando fui autoridade administrativa nunca exerci violências [referência às ferozes perseguições de que foram alvo os católicos no início da 1ª República]; deixei sempre o culto católico-romano à vontade, apesar de não comungar no seu credo e ideias!.. Liberdade sempre completa!.. Tenho como amigos monárquicos e sacerdotes que me estimam, prezando muito, e isso dá de través com as apreciações que a “Voz” fez de mim, com a agravante de que esta sabe quem eu sou. O Conselheiro Fernando de Sousa (1855-1942) [fundador do jornal “A Voz”, de orientação monárquica e católica] tinha por mim grande amizade e dizia que eu sou um republicano limpo de alma e coração. E o filho consentiu que na “Voz” viesse aquele desconchavo estúpido do [Alfredo] Pimenta que nem sequer sabe desafrontar-se de uma agressão!..[alusão à bengalada na cabeça desferida pelo escritor Aquilino Ribeiro]. O que lhe vale são os meus sentimentos cristãos, porque ele – modéstia à parte! – não se aguentava com um soco que eu lhe desse!.. Graças a Deus, porém, sei dominar-me. O mesmo não sucederia se o caso se passasse há trinta anos!.. Agradeço a Vossa Ex.ª a justiça que me fez, tanto mais que nunca falámos. Isso me comove, creia,
porque sou sensível às boas e amáveis palavras. Eu não escrevi o meu livro [Rei D. Carlos I] com o desejo de menoscabar o pobre Monarca que foi uma vez bom para com os meus 18 anos [episódio narrado na introdução do seu livro, onde evidencia a simpatia e simplicidade autêntica do Rei Dom Carlos I]. Nunca deixei de o cumprimentar com um sorriso, e se tornasse a falar com ele – o que não seria natural! – eu lhe teria agradecido a sua bondade com as melhores palavras que eu pudesse. Nem Vossa Ex.ª, nem pessoa alguma, será capaz de ler no meu trabalho uma palavra desrespeitosa para com D. Carlos I. Não concordei com o franquismo em que Ele se apoiou, e Vª vai que eu defendi-o em certas passagens, e disso me não arrependo. Comovi-me com a sua morte; orei por ele com muito sentimento, e ainda hoje penso nele com muita pena. Não merecia ter tanto martírio!.. Não!.. Se eu fui preso, foi devido às sugestões do aldrabão e a Polícia não soube ler o trabalho que apresentei, o que terá defeitos. – Creio mesmo que os tem! – mas não é [termo ilegível] !.. Defendi a Rainha D. Amélia uma senhora que pertence à Família desventurada dos Orleães. Estou contente com a sua consciência!.. Como cristão que sou – e sê-lo-ei sempre, até que Deus me tire deste mundo de provação e desterro – não posso admitir o assassinato dos regicidas que foram transportados para a Morgue num estado lastimável!.. Poderei admitir o desforço, mas jamais a crueldade!.. É aqui que está o ponto nevrálgico do livro, como disse o Capitão Catela [secretário-geral da PVDE]!.. Se este último conhecesse os meus sentimentos não me teria dito isso. Vejo que há alguém que não compreendeu bem o escopo a que obedeci, escrevendo sobre o pobre e desventurado Monarca!..
Vossa Ex.ª escreveu uma frase que lhe agradeço e que mereço. Bem-haja por ela, porque me dá a impressão de que o Sr. Mário Ribeiro é homem digno que sabe avaliar as coisas como são: – Eu sei que V. tudo escreveu por bem. Sim, senhor Ribeiro, escrevi com o sentido de Justiça, e sem guardar e sem querer magoar fosse quem fosse. E Dom Carlos sobretudo!.. A minha piedade pelos assassinos é aquela piedade que se tem pelos que são falhos de serenidade, pelos que erram; pelos que estão fora da lei de Deus que é a Eterna Fonte do Bem e do Amor e que manda respeitar a vida dos nossos irmãos!.. (…). Júlio de Sousa e Costa” Já num pequeno cartão, dirigido ao maestro Mário Ribeiro, Júlio Costa dá conta de um episódio caricato aquando o seu interrogatório pela Polícia de Estado. É hilariante corroborarmos a desconfiança e incultura dos agentes que viam ideais subversivos onde nada o fazia prever: “Uma coisa interessante me disseram na Polícia: que o meu livro era de estrutura maçónica… Não pude resistir… Ri com vontade! Nunca fui maçon, nem meu Pai e Tios, Primos e afins. Mas que invenção tão patusca!.. Eu que nunca compreendi, nem quis compreender, ritos de qualidade alguma jamais quis pertencer à Maçonaria! Tenho na minha biblioteca a Bíblia, o Alcorão, muitos volumes de Teologia Dogmática e Sacramental, os cadernos do Xintoísmo, Budismo, a Toura (e tutti quanti em livros religiosos) e nem um sequer sobre Maçonaria!.. Nunca isso me interessou!!..
(…) Imagine Vossa Exª! Eu maçon!!.. Se o tivesse sido porque não havia de dizer? Sou filho de um homem leal e leal sê-lo-ei até à morte!..” Como pudemos depreender, a censura à obra “O Rei Dom Carlos I” resultou de um amontoado de equívocos, a partir da infundada e maledicente denúncia feita pelo escritor Alfredo Pimenta. Que não morria de amores por Júlio de Sousa e Costa (uma das razões dessa animosidade estaria ligada à forte camaradagem do autor da Barquinha pelo seu arqui-inimigo, João Paulo Freire, que em três folhetos o intitulou de “Aldrabão Pimenta”. Este último pormenor seria agravado pelo facto de ver referido no livro “O Rei Dom Carlos I” o seu oportunismo ideológico (op. cit. pág. 24), o que levou Alfredo Pimenta, por desforço, a denunciar Júlio Costa como apologista dos regicidas e do assassinato do monarca. Cremos que o livro do autor da Barquinha é um elogio ao grande rei que foi D. Carlos. Vitimado pelas “ambições e [ganância] dos políticos e da jolda que eles acaudilharam, como sejam caciques e influentes que tinham exigências infrenes e apetites desmedidos” (op. cit., pág. 21). Quando o Rei “quis transformar a reinação [que ia depauperando o país] em governação”, já foi tarde! O infeliz monarca seria assassinado por culpa da “piolheira” (expressão atribuída a D. Carlos, que achava Portugal “um país de bananas governado por sacanas”) que durante largos anos parasitara o País.
Texto escrito com a antiga ortografia

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