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As Bolas de Trapos

Nos meus tempos de miúdo a rapaziada perdia-se por jogar com bolas de trapos nas ruas e nos largos, fazendo-se as balizas com as pastas da escola, ou jogando à mão de porta em porta, sendo estas as balizas. E calcule-se a “doença” até as pequenas sarjetas serviam de baliza, usando-se nestes casos as bolas de madeira que se roubavam nos matraquilhos. Os fi nais de dia e as noites eram pois esperadas com avidez e regra geral toda a malta participava, chegando a fazer-se a equipa principal e outras de menor valia, mas que serviam sempre para suar a camisola e os calções e dar cabo dos sapatos ou das botas que tanto dinheiro custavam aos pais de cada um. Bairro era bairro que se prezava e defendia-se sempre com unhas e dentes até cair para o lado e esfolar os joelhos. Depois, com o passar dos anos, os cachopos de cada bairro organizavam-se e começaram a combinar alguns jogos do estilo, muda aos cinco e acaba aos dez, utilizando-se alguns estádios famosos da nossa então vila, como as eiras do Barrará, do Arraial e do Farinha, os Rossios de São Sebastião e do Carmo, o Largo do Quinchoso, não esquecendo o belo recinto da Casa Esqueleto dos Bombeiros, ali por detrás do edifício do CTT de hoje. As bolas eram sempre de trapos, meias velhas, camisolas usadas e outros tecidos, superiormente cozidas e enroladas a preceito e que iam servindo até aparecerem as primeiras bolas de borracha, um luxo a que só os felizardos que chegavam aos principiantes do Clube Desportivo de Torres Novas, treinados pelo pescador do rio Almonda Francisco Nabiça, que era o mister dos putos no Quintal do Zé Maria em fi nais de dia, após a sua quotidiana pesca de enguias, de bordalos e de pampos. A bola e o jogo fez nessas épocas muitos amigos que ainda hoje perduram, sem olhar às condições de vida de cada um e quem teve a honra de envergar ofi cialmente a camisola amarela do nosso Torres Novas, fi cou amigo para sempre. Para eles que são tantos e sabem bem quem são, vão estas humildes palavras de boa memória. Eu, infelizmente, nunca joguei ofi cialmente por causa de uma valente bolada num sítio que eu não digo, mas o meu amor ao Clube Desportivo de Torres Novas, esse nunca morrerá em mim, porque hei-de gritar sempre “Amarelos, Amarelos”.

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