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O telemóvel

O meu reino nunca foi o mundo das máquinas. Nunca me relacionei com à vontade com esses seres que fazem coisas maravilhosas, mas que são incapazes de responder a um afago ou de dar uma marradinha ternurenta nas canelas do dono. Talvez isto venha da minha infância em que a máquina era coisa ausente da vida. O automóvel, uma raridade na aldeia e o comboio, nunca visto, apenas assombrava a nossa imaginação. Lembro-me de lagares de azeite movidos a juntas de bois ou alimentados pela vala de água. Quando um dia apareceu o primeiro lagar movido a motor, aquilo seria milagre ou era bruxedo. Pois é esta a realidade, as máquinas chegaram tarde à minha vida. Será talvez por isso que eu sou, hoje, o maior aselha a lidar com qualquer máquina seja o micro-ondas, o computador, um simples telemóvel. Este, para mim serve, só e só, para receber e enviar chamadas e o computador é apenas uma espantosa máquina de escrever. Isto será devido à minha criação, à minha ignorância, à minha inabilidade. Admiro aqueles que tratam qualquer máquina por tu. E estas máquinas, que invadiram a nossa vida, ainda as olho de esguelha como intrusas e como destruidoras dum mundo que foi meu. Ainda há dias entro no comboio para Lisboa, disponho-me a ler pacatamente o jornal. Qual quê! No banco ali ao lado a mãe, em voz bem sonora, pelo telemóvel, informa a filha que já vai no Entroncamento e blá, blá. A conversa ainda não terminou e já o som estridente de outro telemóvel me arranca do jornal. Mais lá, um tipo deplora as galinhas mortas no incêndio. Deixo o jornal e ouço obrigatoriamente uma babilónia de conversas cruzadas. Máquina admirável o telemóvel. E humana, aproxima e não afasta. No passado domingo, no restaurante, um pai, uma mãe, um filho. Os três unidos no mesmo gesto de atenção: cada um fascinado pelo seu telemóvel. Então, a mãe abanava a cabeça e ria olhando o pequeno ecrã. E pensam que partilhava o riso com o filho ou com o marido, cada qual entretido com o seu pequeno objeto? Cada um por si, ignorando os outros, amorosamente partilhando a refeição. Em silêncio.

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