Home > Crónicas > Mal-humorados

Mal-humorados

Quando vemos alguém, nosso amigo, com um rosto fechado e triste, logo exclamamos: “parece que todos te devem e ninguém te paga!”. De facto, nos tempos que correm os nossos concidadãos, apesar de todas as promessas políticas, andam acabrunhados e quanto mais cultura têm mais acabrunhados parecem. Sempre ouvi dizer que os portugueses são tristes e até, num programa de música do maestro Vitorino de Almeida ele afi rmou que as cantigas populares que nos parecem tão alegres são em tom menor. Também somos o país do fado e fado signifi ca destino (Fatum em latim e Moira em grego). Pergunto-me porque é que o destino há-de ser triste? Há diferentes tipos de malhumorados: os que, julgando-se superiores aos outros sentam-se no café defendendo o seu espaço e reservando-o, mortinhos porque ninguém os incomode. Estes normalmente julgam-se intelectuais e como o poeta latino diz: “odi profanum vulgus” (odeio o povo inculto). Depois há aqueles que porque sempre tudo lhes corre mal, andam macambúzios e revoltados com eles mesmos. Estes não têm a mania da superioridade e falam a toda a gente. Claro que todas estas considerações são muito subjetivas e são fruto das minhas observações. Temos na nossa literatura exemplos claros destes dois tipos. Miguel Torga o autor de “Os bichos” parece que era um homem intratável. Não sei se alguma vez deu alguma entrevista. Mais longe, temos os Vencidos da Vida como Antero de Quental, Cesário Verde e outros. O facto de serem pensadores geniais, tinham do género humano um pensamento negativo que se refl etia nas suas obras. Bem sei que os sociólogos podem explicar isto de várias maneiras porque, esta tristeza que nos atinge, parece-me inscrita no nosso ADN. Alguns provérbios como aquele que citei no início são indícios dessa nossa pecha nostálgica que se acentuou com o desastre de D. Sebastião. E assim temos: “tens cara de poucos amigos”,” tens cara de Senhor dos Passos”, “tens cara de enterro”, etc, etc. Os nossos Carnavais tiveram que pedir emprestado aos nossos irmãos Brasileiros a sua alegria, a sua expressão descontraída. Será que as novas gerações vão ser mais alegres? Não me parece mas era bom pois as tristezas “não paga dívidas” e até faz mal ao fígado!

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook