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O último número de “O Torrejano”

Jornal republicano, de cariz democrático, surgido nos finais de 1915 (26/12), sendo director e proprietário Artur Gonçalves, editor e administrador seu filho Artur Vergílio Arês de Vasconcelos, termina, encerrado pela acção da censura sidonista, no seu n.º 104, em 10/2/1918. Nos seus 104 números espelha-se a opinião duma personalidade de ideologia democrática, que, na prossecução local da política desse partido, presidido por Afonso Costa, que governa desde 29/11/1917, vem a formar governo com o Partido Evolucionista, de António José de Almeida, este presidente, aquele ministro das Finanças (15/3/1916-25/4/1917), para de novo chefiar o país até 8/12/1917, após a vitória do Sidonismo. Principais temas: a participação de Portugal na Guerra; a defesa da Cruzada das Mulheres Portuguesas, criada para apoio às famílias carenciadas dos militares mobilizados nas colónias de Angola e Moçambique, ou na Flandres; o combate aos opositores, especialmente os monárquicos, identificados como germanófilos; a defesa da aplicação da Lei de Separação da Igreja do Estado; o do ensino laico. Patriotismo, nacionalismo, colonialismo, democratismo, poderiam, em síntese definir um espírito, como o de Artur
Gonçalves, que, em 1914, após concurso, é colocado como secretário da Câmara a 7 de Maio de 1914. Nesse ano de 1915, acabaram no leito do rio Almonda os tipos de O Jornal Torrejano, que no fim da sua longa carreira (9/10/1884-16/5/1915), consequência da vitória da revolução democrática do 14 de Maio contra a ditadura de Pimenta de Castro, para ali foram lançados pela formiga branca, terminando com a existência dum jornal que, por meados de 1914, virara monárquico, antiguerra mundial, antidemocrático, defensor do tradicionalismo religioso, opositor acérrimo da Lei de Separação. Um outro jornal, de cariz cinematográfico, propagandista das sessões do Cine-Teatro Virgínia, alugado pelo Montepio de Nossa Senhora da Nazaré à empresa Nunes & Rodrigues, com alguma informação local e militar, O Fóco, vai desaparecer em Dezembro, semanas antes do aparecimento de O Torrejano. Deste vai ser o monopólio da informação, importante pelo que descreve do quotidiano concelhio, no aspecto económico, social, cultural, mesmo dos simples noticiários de nascimentos, casamentos e óbitos. A revolução sidonista veio colocar Artur Gonçalves e o seu filho numa situação complicada, já que ambos são funcionários, ele municipal, o filho da administração local. O jornal, colocado pela revolução de 5 de dezembro como voz da oposição democrática, sabe que, a breve prazo, lhe acontecerá o mesmo que ao Centro Democrático 5 de Outubro: o inevitável encerramento. Colocada no município uma nova Comissão Administrativa, em 12/1/1918, presidida por um antigo presidente monárquico da autarquia, Dr. João Martins de Azevedo, e novo administrador do concelho, o major reformado Joaquim Augusto Galvão, dificilmente ambos se manteriam nos cargos, se se mantivessem activos na luta política anti-sidonista, como é revelador o exemplar do último jornal. Artur Gonçalves, no editorial intitulado A Voz da Razão, menospreza a visita presidencial de Sidónio ao Porto, superada, no seu entender, pela grande manifestação democrática do 31 de Janeiro. Mostra como a política sidonista conduz à destruição da República, visto que os maiores apoiantes do ditador são monárquicos. Merecem-lhe a mais dura crítica as palavras de Sidónio, no comício do Porto, «com tal povo e com tal gente, podem vir os Bernardinos Machados e os Afonsos Costas e todos os democráticos que não temos medo. Caíram pela força do ridículo, como já hontem tombaram pela força dos seus crimes», já que, contrapõe, «expulso o Sr. Dr. Bernardino Machado preso o Sr. Dr. Afonso Costa, as principais figuras do partido democrático, suspensos os seus jornais, dissolvidos os seus centros políticos, fraca valentia é provocar inimigos nestas condições». Aliás, este último periódico terá saído em data posterior à indicada no cabeçalho, já que em nota manuscrita do autor, se lê que «O Torrejano foi suspenso por ordem do Governo Civil». Terá saído após 11 de Março, data em que o Administrador do Concelho o informa do fim da suspensão. Poderia o jornal ter continuado? A ideologia do director dificilmente se curvaria à política sidonista, novas suspensões se levantavam no futuro, dificilmente seria conciliável o lugar de secretário da Câma
ra Municipal com o do opositor democrático. A opção do fim do periódico pode ter sido apenas temporária. Mas o aparecimento de O Almonda, em 24/11/1918, veio encerrar-lhe a porta dum futuro reaparecimento.
antoniomario45@gmail.co

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