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Máscaras e cinzas

Tudo que faço agora é conversar com o leitor. Como fazia nosso querido Padre Maya dos Santos. Que ninguém se engane, as conversar desta à janela são mesmo conversas, longe da seriedade falsa e da objetividade hipócrita das máscaras que se vendem em tantos jornais.
Devo apresentar-me? Nasci no Brasil. Montes Claros. Terra seca e árida. A enfermidade de meu pai fez-me
ir para um mosteiro. Depois quis ser futebolista, pianista, jornalista, militar. Voltei para a Igreja. Estudei Filosofia e Teologia. Fiz mestrado e doutoramento, já nem me recordo em quê. O que eu gosto mesmo é de música.
Especialmente música popular brasileira, bossa nova, tropicália. O fado me encanta, mas exagera na dor. É
falso. Oiço canto gregoriano para meditar. Já dancei bolero. Tango não ouso dançar. Samba nem pensar. Leituras
de prazer: Platão, Voltaire, Montagne, Saramago, Rubem Alves, a Bíblia. Pintura, especialmente Picasso. Arquitetura, minimalista. Filho caçula de uma família numerosa, luto contra aquelas obsessões de pontualidade e pragmatismo, companheiras da incompetência e das úlceras. A minha experiência teológica e política treinou-me contra o fanatismo, que detesto. Gosto de futebol. Tenho tentado caminhar. O meu medo é morrer de avião.
Penso que a nossa função é a de queimar as máscaras. Mudar a palavra pelo riso. Coisa sincera é o riso. Invoco
o riso e ele vem lá de dentro, sacode os ombros e obriga o nosso corpo à honestidade.
Rimos sem querer, contra a vontade. O riso nos possui e faz o corpo inteiro balançar num ritmo de carnaval brasileiro. É o riso que queima as máscaras do nosso personagem quotidiano. Depois do riso, sobram as cinzas, o pó do ser. Neste instante resta–nos escolher a recolha ou o descarte das cinzas da velha
máscara. Na hora seguinte, podemos voltar às máscaras, algumas até de ferro, que nos aprisionarão até que
venha de novo, o riso.

Durval Baranowske, diretor

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