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A caminhada

Por recomendação médica comecei a caminhar. Saio de casa e pouco depois faço a minha primeira paragem. A culpa é de um pé de dióspiros que desobedecendo às ordens do muro que o cerca lançou os seus frutos sobre a calçada da rua. E é apanhando dióspiros proibidos e com a boca suja desse néctar, que sou visto pela Meia Via. A 500 metros, caminho pela Charneca. Ali não há deleites para a boca, mas para os olhos. É inverno, o sol ilumina os campos e a alegria do vento faz a dança das folhas verdes e amarelas, que cobrem os dois lados da estrada. Durante a noite essas folhas caíram e ainda conservam a humidade do orvalho, a transformação da manhã, o perfume da natureza. A contemplar o espetáculo de um céu azul e cinza, logo chego ao Parque do Bonito, onde não estou só, outros estão comigo, mas nem percebem, porque concentrados e de olhos no chão procuram salvar o corpo em detrimento da alma. E nem ouvem o cantar dos pássaros que se misturam a solfejar por ali. Grande terapeuta é a natureza do Bonito, sem nada cobrar, desintoxica o corpo e a alma de quem ouve e vê. Mas há quem insista em deixar os sentidos em casa. Eles têm medo de morrer. Por isso só cuidam do corpo e esquecem-se da alma. Por ali percebi um romance, já há algum tempo. Lá em cima, longe dos olhares indiscretos, dois eucaliptos gigantes se abraçam. Os seus galhos entrelaçados revelam que são namorados. Quando sopra o vento, as suas cascas, como pele, esfregam-se e oiço gemidos. Acho que é amor. Ando ainda pelos lados de Pintainhos. Levado pelos pensamentos leves que a natureza me traz, paro de repente, pois as alegrias dos olhos e as alegrias dos ouvidos são perturbadas pela tristeza do cheiro. Respiro fundo. Sinto a putrefação da Ribeira da Boa Água. É hora de voltar. Durval Baranowske, diretor

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