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O pior foram os cheques

Foi num belo sábado de primavera – e já lá vão mais de trinta anos, quando eu, na altura subgerente do BPI em Alcanede, participei em Leiria, mais concretamente no Teatro José Lúcio da Silva, no primeiro Festival da Canção Popular de Leiria, com a canção “Inventar a Esperança”, com letra de António Lúcio Vieira e música de João Maria Ferreira Julião. Esta representação torrejana não se ficava por estas três personagens, pois deslocaram-se a Leiria cerca de quarenta amigos da malta, para aplaudirem e conviverem como habitualmente faziam, nos encontros das bombas do então Galinha e essa claque ruidosa e participativa garantia à partida uma boa classificação. Para mais, o apresentador masculino era o nosso Carlos Ferreira (Necas) e um dos membros do júri era o seu irmão Jorge Ferreira. O “baile estava armado”. As canções começaram a desfilar e alguns nomes eram sonantes, como o da Ágata, e o de Olívia (casada com o maestro Fernando Correia Martins) e até a grande poetisa Rosa Lobato Faria era autora de uma das letras a concurso. Os play backs eram todos gravados profissionalmente em estúdios diversos, à excepção do nosso que tinha sido gravado numa das salas da antiga escola primária no Salvador, no meio do Conjunto Níger, com todos os instrumentos ligados à mesa de gravação, superiormente orientada pelo eterno Carlos Nicolau e comigo a cantar em seco, sem ser gravado, mas para orientar os músicos. Depois, com uma esplêndida introdução do João Carocho, lá saiu o play back a contento e a servir bem a sua causa, ou seja, a de me acompanhar em palco. A claque aplaudiu – e muito, a canção lá saiu e bem, e no final um brilhante segundo lugar, com a alegria da malta toda, intérpretes e apoiantes. Recordo com saudade as centenas de beijos que fui forçado a dar e a receber de tanta senhora de idade, que só nos perguntava por onde tínhamos andado, que ninguém nos conhecia. A festa foi rija, o regresso foi glorioso, a Rádio Local de Torres Novas acompanhou a situação e lançou a gravação para o ar, tendo sido um real sucesso local nessa altura. No final, três cheques de 40 contos para o cantor, para o autor da música e para o autor do poema. Tudo bem, tudo cor-de-rosa, até que na terça-feira seguinte, na Caixa Geral de Depósitos nos informaram que os 3 cheques não tinham cobertura. Saiu-nos a fava, mas passados alguns dias lá se levantaram os cheques, e este foi o início, pelo menos no que a mim respeita, de uma enorme fortuna que consegui com a música. A fortuna de ser feliz em fazer aquilo que mais gosto, cantar.

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