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Um comportamento antidesportivo de Carlos Torres

A Joaquim Canais Rocha

Há algum tempo, no jornal “O Almonda”, passámos em revista o percurso desportivo de Carlos Torres (1908-1991). Futebolista de eleição, a antiga glória do desporto torrejano e nacional nasceu a 4 de Janeiro de 1908. Há precisamente 110 anos. O ponto mais alto da longa carreira desportiva de Carlos Torres coincidiu com a passagem pelo Sport Lisboa e Benfica, entre os anos de 1933 e 1937. Pela formação encarnada obteria dois títulos de Campeão da 1ª Liga, nas temporadas de 1935/36 e 1936/37; e um Campeonato de Portugal na época de 1934/35. Foi também o melhor marcador da equipa lisboeta, na temporada de 1933/34, com 7 golos.
Antes da sua passagem pelo Sport Lisboa e Benfica, Carlos Torres passeou pelos campos de futebol do distrito a sua excelente veia de goleador e apurada técnica. Virtudes futebolísticas bastante elogiadas pelos seus colegas de profissão e adeptos do desporto-rei. Apesar da sua personalidade algo difícil (daí a alcunha de “Marreta”), Carlos Torres evidenciava um comportamento exemplar dentro e fora dos campos de futebol. Qualidade que lhe conferiu o estatuto de ser um dos atletas mais respeitados do distrito no seu tempo. Na História do futebol torrejano o seu nome ficará para sempre associado ao extinto Torres Novas Futebol Clube (fundado a 19 de Janeiro de 1925). O seu clube de eleição! Entre os anos de 1926 até à altura em que rumou para o clube lisboeta foi o seu mais importante jogador. O inevitável marcador de golos da equipa e a chave das muitas vitórias alcançadas pela antiga agremiação torrejana. Dois sonhos ficariam por concretizar na carreira de futebolista de Carlos Torres: o de ser internacional pela selecção das quinas (a aspiração de vestir a camisola nacional seria conseguida, anos mais tarde, pelo seu sobrinho, o célebre futebolista torrejano José Torres); e o de um dia ver ressurgir o seu antigo clube de coração – o Torres Novas Futebol Clube. É corrente encontrar nos registos biográficos da antiga glória torrejana inúmeras referências às suas qualidades de futebolista de eleição. Mas, como qualquer ser humano, Carlos Torres era portador de algumas fraquezas. O próprio confessaria alguns dos seus pontos fracos à revista desportiva “Stadium”, nas vésperas da primeira grande final entre o Sport Lisboa e Benfica e o Sporting Clube de Portugal, realizada no dia 30 de Junho de 1935, a contar para o Campeonato de Portugal. Nesse jogo, efectuado no velho estádio do Lumiar, o clube encarnado venceria o seu rival lisboeta por 2-1, sagrando-se campeão de Portugal na época de 1934/35. (A partir da época de 1937/38 esta prova daria lugar à actual Taça de Portugal). Numa das páginas da consagrada revista Carlos Torres confessaria dois dos seus pontos fracos: ” fazer mais um «dribbling» depois do último…. e [como bon vivant que era] chamar seu ao Parque Mayer”(“Stadium”, nº177, 3 de Julho de 1935, pág. 3). Outro momento de fraqueza, na carreira exemplar de Carlos Torres, ocorreria num domingo, a 12 de Fevereiro de 1933, no encontro entre o Torres Novas Futebol Clube e o Sporting Club Goleganense. As diversas publicações desportivas torrejanas são omissas quanto a este encontro, ganho por 2-1 pela formação do Torres Novas Futebol Clube, na qualidade de equipa visitante. O relato sobre a exacerbada conduta do jogador torrejano encontra-se no semanário “Goal”. Publicação dirigida por uma das figuras emblemáticas do neo-realismo português, Alves Redol, e que teve uma curta história, digna de referência: a produção do “Goal” era assegurada por desempregados, nomeadamente tipógrafos. O dinheiro ganho na venda dos jornais destinava-se a auxiliar os mesmos tipógrafos que intervinham na feitura do jornal, isentos de qualquer remuneração. Com a publicação do semanário “Goal” Alves Redol
pretendia incrementar a prática desportiva na região e ajudar os desempregados ligados à imprensa escrita. Além disso, o projecto liderado pelo escritor neo-realista intentava inculcar valores sãos no desporto. Que já na altura andava arredado do seu caminho certo. Imerso no pulular de “paixões mórbidas” e facciosas. É dentro desta nobre linha de valores que o correspondente do jornal, Albino Cordeiro, no artigo sobre o encontro entre o Sporting Clube Goleganense e o Torres Novas Futebol Clube, tece alguns reparos à atitude pouco desportiva protagonizada pelos jogadores torrejanos, Torres II (Francisco Torres) e Torres I (Carlos Torres). Nesse dia os irmãos Torres tiveram um comportamento reprovável. Pouco consentâneo com a prática do futebol. Principalmente Francisco Torres que seria obrigado pelo árbitro, António Mário de Almeida, a abandonar o campo por conduta “pouco delicada”. Já Carlos Torres escapou ileso de levar uma “grande admoestação”. Apesar “das indelicadezas e obscenidades proferidas ante as bancadas onde se encontravam senhoras que [mereciam] o maior respeito e consideração”(“Goal”, Ano I, nº VI, 15 de Fevereiro de 1933, pág. 4). Episódios desta natureza foram raros na carreira desportiva da antiga glória torrejana. Aos olhos dos adversários e adeptos Carlos Torres era visto como um jogador calmo e leal. O momento registado seria um dia menos bom na esfera da sua conduta que, de uma maneira geral, foi marcada pela exemplaridade.
Texto escrito com a antiga ortografia.

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