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1918 – Da implantação do Sidonismo ao fim da «República Nova»

1918 marca uma viragem na política portuguesa desde a queda da monarquia e a implantação da República. A revolução Sidonista coloca o Partido Democrático na ilegalidade, submete os interesses da sociedade portuguesa a um regime autoritário, ainda que sem se desdizer, republicano; o Partido Unionista, que numa primeira fase é comparsa, com três ministros, do governo saído da revolução; emudece o Partido Evolucionista, de António José de Almeida; ilegaliza, por meio das prisão de Afonso Costa e de outros dirigentes, com o encerramento das sedes partidárias, centros democráticos, respectiva imprensa, o Partido Democrático. O Partido Socialista e as organizações anarco-sindicalistas, que se manifestaram em concordância com o acto revolucionário, por defesa do fim da guerra, por melhores condições de vida do operariado urbano e rural, em breve também, desiludidos, se afastam, regressam à luta grevista e à ideia duma revolução do proletariado. Assiste-se a uma nova fase política, com uma figura carismática, Sidónio Pais, à sombra do qual se reagrupam as forças católicas e monárquicas, republicanos descontentes com a intervenção de Portugal na Guerra,
o país rural e do interior e o dos interesses económicos, que transformam Sidónio no Presidente -Rei, a República na «República Nova», o aplaude em cada lugar a que se dirige, lhe dá o seu voto maioritariamente analfabeto nas primeiras eleições presidenciais realizadas por sufrágio universal. Os problemas sociais e económicos mantêm-se, quando se não agravam. O operariado, logo em Janeiro, retira-lhe o apoio e desencadeia uma série de greves, sofrendo de novo a repressão militar e as prisões. Os géneros continuam a escassear, os salários diminuem ante o acréscimo do custo de vida, o açambarcamento, a candonga, fazem a fortuna de alguns e a miséria de muitos. Saneia- -se a administração pública,
substituindo republicanos por monárquicos. Na guerra, as tropas portuguesas ficam praticamente abandonadas, sem substituição, já que, muitos dos que governam, política e militarmente, lhe são desfavoráveis. É também um ano em que a experiência do poder pessoal, autoritário, carismático, militarista, mas caritativo e com grande empatia entre o sexo feminino, assente num regime presidencialista, onde os ministros passam a secretários de estado, lança as raízes dum partido único, o Partido Nacional Republicano, cria um Senado dirigido por conservadores e monárquicos, embrião do sistema corporativo que, mais tarde, Salazar imporá ao país. Não dura muito o estado de graça e, a partir do segundo semestre, preparam-se golpes revolucionários, quer do operariado anarco-sindicalista, quer do democrático, que falham, mas levam a uma espiral de violência que conduz da declaração em Outubro do Estado de Sítio, com prisões, violência, até ao assassinato de Sidónio Pais (14/12). Três acontecimentos, O Armistício (11/11), que marca o fim da 1ª Guerra Mundial; as Juntas Militares, que tentam preservar o sidonismo sem Sidónio, levando à implantação da Monarquia do Norte e à sua consequente derrota; a gripe pneumónica, que arrasa durante meses o país, incidindo com grandes consequências, pela mortalidade elevada e a miséria que cria, nas classes mais pobres, rurais e urbanas; encerram um ano demasiado penoso para a humanidade. É uma época muito mal conhecida no concelho de Torres Novas. Em 1918, dois jornais marcam-lhe o início e o fim. O Torrejano, democrático, dirigido por Artur Gonçalves, que, suspenso pelo Governo Civil, deixa de se publicar em 10 de Fevereiro de 1918. O Almonda, cujo primeiro número, publicado a 24 de Novembro, por um grupo de jovens da segunda geração, republicanos e católicos, conservadores e liberais, que marcam no concelho o fim da «República Nova» e com ela sucumbem na sua primeira tentativa, ao nº 7 (5/1/1918), só vindo a reaparecer, com mudanças, a 10 de Agosto desse ano, sete meses depois. Só com o estudo da documentação cruzada da Comissão Municipal Sidonista, da correspondência da Administração, dos livros de actas da Misericórdia, Clube Torrejano, Montepio de Nossa Senhora da Nazaré, documentação da igreja e correspondência concelhia na imprensa nacional, documentação diversa, se tornará possível melhor interpretação desse período no concelho.

antoniomario45@gmail.com

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