Home > Crónicas > Poema de um Torrejano Ilustre

Poema de um Torrejano Ilustre

É comum referir Portugal como um país de poetas. Desde muito cedo o primeiro contacto da maior parte dos jovens com a designada literatura nobre faz- -se através da leitura e produ- ção de textos poéticos. Por essa razão é natural encontrar nas primeiras publicações de alguns dos grandes prosadores nacionais pelo menos um obra dedicada à poesia. Também um dos nossos ilustres autores torrejanos, Jaime Justino Olimpo Victor (1855- -1924), não fugiu a esta concomitante regra. Os seus primeiros passos na literatura foram marcados pela tentativa de singrar no campo da musa Euterpe. A estreia poética de Jaime Victor acontece em 1877, através de um opúsculo com dois poemetos, intitulados “Herculano e Michelet”. O primeiro, dedicado ao insigne historiador português, teria a honra de ser recitado pelo incontornável actor lutadores ignorados que levam desveladas noites, amalgando as pérolas do talento com as camarinhas da fronte de operário. Poeta, jornalista, lexicógrafo, revisor de provas tipográficas, ele é um exemplo e uma lição severa aos moços seus contemporâneos, muitíssimos dos quais não trocariam pela mais afestoada glória o seu doce e beatífico far niente (…). Se ele, daqui a alguns anos, já não fizer versos, não nos admiramos. Não há nada como as lutas da vida material, e a pressão do trabalho estipendiado, para apagar as mais largas aspirações, e para estiloar as mais enfloradas esperanças de um sonhador de quimeras. Se tal suceder – o que Deus não permita –, ficará em todo o caso no lugar do poeta um prosador prestimoso, esclarecido e honrado” (FIGUEIREDO, Cândido; “Homens e Letras – Galeria de Poetas Contemporâneos”, Typographia Universal, Lisboa, 1881, págs. 73-74). Infelizmente as exigências da sua profissão de jornalista ditaram o gradual obscurecimento da promissora porta. Ainda publicaria mais alguns poemas, espalhados por folhas soltas ou em revistas. O auspicioso poe Eduardo Brazão, na noite de 4 de Dezembro de 1877, no Teatro D. Maria II, em Lisboa. Também na colectânea Brinde aos Senhores Assinantes do «Diário de Notícias» correspon- dente ao ano de 1877”, o torrejano ilustre publicaria outra jóia poética da sua lavra, com o título “A Mãe”. As primeiras produções poéti- cas de Jaime Victor levaram alguns reputados autores nacionais a augurarem-lhe um enorme futuro na arte da versificação. Como foi o caso do insigne filólogo e escritor Cândido de Figueiredo. Sobre o então jovem poeta torrejano escreveria estas incentivadoras palavras: “Começa agora a mostrar o que vale e o que pode valer, e já podemos chamar-lhe com justiça um poeta. Os seus versos não parecem de rapaz: parecem, antes, de um homem que reflecte, e de um artista que não esbola uma paisagem sem idear os seus últimos retoques. Vê-se que há ali predisposição e unidade, condições não vulgares em versitas modernos. Jaime Victor é um moço extremamente modesto, singularmente trabalhador, cheio de bons afectos e sem ambições desmedidas. Magro, pálido, um pouco triste, ele é talvez dos ta daria lugar a um dos mais conceituados e respeitados jornalistas do seu tempo. Com uma vasta experiência na fundação, direcção e como crítico de diversas publicações e jornais. Para trás ficavam algumas das mais belas jóias da poesia torrejana. Com destaque para o belíssimo poema, escrito na sua juventude, “A Mãe” (fragmento de um poema inédito). Como salientámos, este texto poético encontra-se inserido na colecção “Brinde aos Senhores Assinantes do Diário de Notícias em 1876” (págs. 107 a 117). A extensão do poema não obscurece o encadeamento dos seus versos e a fluidez do seu ritmo, que se conjugam numa perfeita harmonia com o assunto. Capaz de prender o leitor desde o início até ao seu desfecho trágico. Nele, uma mãe está em vias de praticar um acto hediondo, ao tentar esconder o fruto do seu amor ilícito. Quando se prestava a abandonar “o [seu] mais doce afecto, o [seu] maior tesouro” (…) “alguma coisa ouviu, conteve-se e escutou; / Um vagido de dor no coração lhe ecoou/ [Compreendendo] enfim o horror da situação”. O incondicional amor de mãe falava mais alto! Decidiu então lutar pelo seu doce tesouro. Mesmo que isso a obrigasse a lutar contra todos os obstáculos e a sofrer as mais dolorosas ignomínias. Bastaria, apenas, àquela desafortunada mãe, nas horas de amargura, um sorriso do seu mais precioso tesouro para lhe dar ventura e ânimo. A lua e a natureza eram testemunhas das esperançosas promessas feitas pela malograda mãe ao frágil rebento. De retorno a casa, à medida que se aproximava do velho solar dos Condes de Atouguia, o seu alento redobrava. Ao entrar no seu quarto, deitou o inocente filhinho no leito. O angélico dormir da criança “eram prenúncio atroz do mais atroz porvir! De súbito [a mãe] fixou todo o fulgúreo brilho/ Do seu materno olhar no idolatrado filho!/ Porém ficou perplexa, estática, assombrada!/ Divisou-lhe no ombro uma cruz azulada/Que em sinal lhe fizera. Aproximou-se mais./ Pediu ao céu perdão, soltando fundos ais. Rezou talvez. Depois chorou, chorou./ Nessa hora/ Veio espreitá-la a furto a pudibunda aurora. ” O poema termina com o raiar da aurora testemunhando o pungente quadro de uma mãe chorosa perante o infeliz filhinho. Apesar da sua forte ambiência trágica vale a pena ler o poema e reflectir! Texto escrito com a antiga ortografia

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *