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Abordagem holística

Gosto de palavras e de conceitos. As primeiras porque transmitem imagens, os outros porque ajudam a compreender as causas. A primeira vez que tropecei nesta palavra foi há alguns anos a propósito da paisagem. Portugal é Lisboa e o resto é paisa- gem. Esta é uma frase feita, supostamente dita, ao que dizem, sem ter sido escrita nos livros dele, por Eça de Queiroz. Mas o conceito terá sido abordado pelo Ega, nos Maias, quando diz que Lisboa é Portugal, fora de Lisboa não há nada*. A frase ficou e ainda hoje falamos da regionalização! Voltando à palavra. É tramado quando encalhamos numa e não compreende- mos o significado! Fui à procura evidentemente; já lhes digo! Vem esta crónica sobre palavras, conceitos e paisagem a propósito de um passeio pequeno que dei no outro dia, no final do dia. Foi mesmo aqui, abeirado a Torres Novas, a meio caminho da Meia Via. Um entardecer de inverno ao mesmo tempo ameaçador, com nuvens escuras a nascente, e tranquilo no sol poente, quase ao rubro. Subi ao cume da encosta, desci ao vale. Vi a cidade ao longe, já iluminada. Ao pé carvalhos mais imponentes que sombras chinesas, a água nos terrenos enlameados, com searas a crescer, um bando de gralhas pretas, que não se calam, nem quando vão dormir. Lembro-me que pensei: que bom seria se todos tivéssemos, no mundo todo, um trecho de paisagem assim, tão serena, tão equilibrada. É este o conceito de paisagem em que o relevo, o clima, a água, as plantas, os animais o próprio homem, interagem com vantagens mútuas. O todo, mais que a simples soma das partes. Afinal, uma abordagem holística.
* Fernandes F., Ferreira J., Frases que fizeram a história de Portugal, p. 183.

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