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Meu caro Quim, até sempre

(para a Clara, com muita ternura)

 

Que vou acrescentar ao que foi escrito? Valerá a pena? Conheci o Quim na minha adolescência, por volta dos anos 60, quando fazia parte dum grupo que se sentava no antigo café Portugal, nas mesas do canto do lado direito. Reuniões públicas dum grupo clandestino, a que alguns de nós, mais jovens uns anos, nos associávamos, nesse local que tanto representou para o quotidiano da vida urbana torrejana. Um dia, a maior parte desse grupo fora preso nessa mesma noite, por razões políticas. Entre eles, o Quim. Mais tarde soube-se que fora, não pela sua concreta acção política, mas para conseguirem saber do irmão, o Francisco Canais Rocha, que se encontrava, militante comunista, após a primeira prisão, na clandestinidade. Quando regressou, meses volvidos, sem julgamento, nem condenação, mas com a vivência da tortura pidesca, quase em simultâneo com o Dâmaso Ribeiro, à mesa nunca vazia, onde permaneciam o Manuel e o Vítor Nicolau, o Manuel Gonçalves, o Arlindo Tavares, mais alguns; aí se continuou a falar de política, cultura, cinema. O cineclubismo que lhe estava no sangue, intercalado com a, na época, euforia campista, que conduzira à criação local do Raiar de Aurora, sito no primeiro andar do edifício onde morava nos altos a família do Mário Pinto, na antiga avenida Carlos Reis, a norte da praça 5 de Outubro, levou-nos, a ele, ao Orlando Freitas e a mim, a uma experiência de boleia e campismo, no antigo parque da Nazaré. Só o Quim tinha tenda, pequena, familiar – lá coubemos os três. Foi a minha primeira e única experiência – além da obrigatória, militar, em Mafra, com um pano e um pau, e que procurasse mais dois para a tenda, que me desenrascasse –, mas a amizade manteve-se durante uma vida, com acções múltiplas, quer na direcção do cineclube, quer mais tarde no suplemento Contacto, que criara, então, em O Almonda. Aí foram publicados os autores torrejanos da década de 60, pela sua mão, o José-Alberto Marques, o José Carlos Cardoso, eu próprio, que viriam a ser publicitados pela mão do dr. Borges Simão, então director da Biblioteca Municipal, na revista Nova Augusta. Suplemento que fez história a nível nacional, com uma polémica sobre poesia experimental, devido a um soneto publicado pelo José-Alberto, que eu recusara como arte. Polémica que trouxe às suas páginas, tomando posição, poetas da geração de 61, como Casimiro de Brito ou Gastão Cruz. Mas o Quim foi, sobretudo, a alma resistente do cineclube, quer na sua programação, quer na coordenação dos programas, dos boletins, da própria revista Sinopse. E, em O Almonda, nos diversos suplementos que manteve durante décadas, a divulgação cinematográfica foi sempre um dos seus grandes objectivos, com o apoio dum emigrante torrrejano no Canadá, o Vítor Pereira da Rosa. Apoiou, com o António José Cardoso, o Manuel Gonçalves, a criação do cinema amador, com o António Lúcio Vieira. Pela mão de Faustino Bretes entrou para a direcção do Cine Teatro Virgínia. Sempre atento, nas suas crónicas semanais no semanário onde escreveu mais de 50 anos, não lhe falhava uma exposição, um evento sociocultural, a publicação dum livro dum autor torrejano. Relembro, com ternura, o texto que escreveu
sobre um pequeno opúsculo poético que publiquei, com ilustrações da pintora Teresa Pais, nos inícios de 2003, e que ele comentou na secção Crónica do Quotidiano, a 24 desse mês. Escreveu então: «Desde muito cedo, que começamos a ler poesia e sempre tivemos uma forma diferente de falar nas obras. Dois poetas marcaram a nossa maneira de olhar para a poesia: José Alberto Marques e António Mário Lopes dos Santos.» Exagero, mas amizade levava-o ao elogio, de forma a despertar nos outros a curiosidade pelos seus amigos. A minha colaboração de décadas em O Almonda deve-se também, e muito, à sua insistência. Nas minhas dissidências e rupturas, sempre me incitou ao regresso. Algo há, agora que o Quim nos deixou, que é urgente trazer a público, mais ainda quando o presidente Pedro Ferreira anuncia a criação do prémio municipal de desporto com o seu nome. O espólio riquíssimo, único, que concretizou ao longo da vida sobre o cinema, a cultura, o cineclubismo, o Teatro Virgínia, deveria ser adquirido pelo município e depositado no Arquivo Municipal. Não o fazer, seria uma vez mais deixar que o património duma época histórica se dissipe e perda. Honrar um nome não é só glorificá-lo com o nome numa rua ou num prémio. O Quim trabalhou demais para este concelho, para que se deixe de fora o que de mais essencial nos reservou: o seu incansável labor a favor do património sociocultural de Torres Novas. Para ele, o meu profundo e carinhoso obrigado.
antoniomario45@gmai.com

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