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Voltar às raízes

Dizia S. Gregório que a vida é uma sucessão de começos. Já nem sei quantos novos começos teve a minha, ao longo destes anos todos. Mas foram muitos. Em lugares diferentes. Em trabalhos diferentes. Com pessoas diferentes. E hoje eis-me aqui num outro começo. Aos 20 anos, escrevi regularmente para um suplemento literário do “Almonda”, coordenado pelo meu querido amigo Canais Rocha. A esta distância, nem me lembro por que razão ele me terá convidado. Eu estava então a começar a minha carreira de jornalista, e assinava Alice Vassalo Pereira. Naquela altura os nossos pais juntavam ao nosso nome uma série infindável de apelidos, e podíamos escolher os que queríamos usar. Mas penso que o convite teve a ver com o facto de eu estar a trabalhar também num suplemento literário do “Diário de Lisboa”, e de pertencer a uma família ligada a Torres Novas: Vieiras, Vassalos e Borgas (este apelido por acaso não me puseram…) sempre andaram por Torres Novas e pelas Lapas. Confesso que nessa altura tinha pouco contacto com a terra. Fazia a minha vida por outros lugares, entre outras pessoas, e a “voz do sangue” digamos que falava baixinho. Mas hoje tudo mudou. E quando o meu amigo Canais me escreveu uma carta – possivelmente a última que terá escrito – a falar na possibilidade destas crónicas quinzenais, eu senti que voltava à terra. Os tempos são outros, todos somos outros. E gosto muito de ver o meu filho à frente da empresa dos meus avós. E gosto muito de ver os meus netos na Escola Artur Gonçalves e no Choral Phydellius. E gosto muito de os ver todos a morar na grande casa familiar que recuperaram na aldeia, mesmo diante do rio. E gosto muito de ver a grande chaminé da fábrica do meu pai conservada junto da biblioteca. Acho que voltei às raízes. E não podemos viver sem elas.

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