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A implantação do Sidonismo em Torres Novas

O ano de 1918 abre um novo ciclo para a história da 1ª República. A revolução de 5 de dezembro, dirigida vitoriosamente por Sidónio Pais, com o apoio das associações comerciais de Lisboa e dos grandes latifundiários do Alentejo e Ribatejo, do Partido Unionista de Brito Camacho, ao qual aquele pertencia, do partido centrista do Dr. Egas Moniz, dos católicos, dos monárquicos e militares que se opunham à participação no conflito, anunciava a derrota do Partido Democrático, de Afonso Costa. A guerra trouxera, a um país pobre e deficitário, além duma mobilização contrariada dos camponeses e operários, um aumento dos preços dos géneros alimentares, que nenhuma medida regulamentadora conseguiu travar. A especulação, o açambarcamento, a subida vertiginosa dos preços, a estagnação dos salários, a defesa da intervenção de Portugal na Guerra, virara contra si não só os adversários da República, como os outros partidos republicanos, unionista e evolucionista, como os operariados rural e urbano , conduzindo ao afastamento de parte significativa da sua base de apoio, a administração pública, pequenos e médios comerciantes, artífices, profissões liberais. Em Novembro, a 4, realizam-se as eleições municipais e distritais, Em Torres Novas, embora se candidatassem três listas, não houve escrutínio, por o número de eleitos efectivos «não exceder as representações do círculo ou do distrito», conforme se lê em O Torrejano desse mesmo dia. Comenta Artur Gonçalves: « Salvo opinião mais autorizada, quer-nos parecer que a apresentação de tais listas por acordo dos influentes das diversas correntes políticas no concelho, foi um bom serviço prestado a este, não só por se evitar uma campanha eleitoral, sempre desmoralizadora e sem significado algum político, mas porque entrando nos Paços Municipais, livres de compromissos pessoais… podem os futuros vereadores começar desde logo no estudo dos melhoramentos que se impõem». Verifica-se que os vereadores eleitos para a Câmara Municipal são 8 da 1ª lista (Centrista, católica , monárquica), 4 da 2ªlista (Unionista), 4 da 3ª lista (Democrática e evolucionista). Mas a situação nacional e local agrava-se e a ameaça duma explosão social revolucionária leva a que no dia 15 de Novembro, nas instalações do Registo Civil, se reúna um grupo de republicanos para apreciar a actual situação política do concelho. Deliberou por unanimidade
criar um organismo político, sem feição partidária, que tenha por principal objectivo A defesa dos interesses do concelho de Torres Novas. Nomeou-se uma comissão para estabelecer um projecto de estatutos, constituída pelas figuras de elite mais representativas dos partidos republicanos tradicionais:
Dr. Augusto Lopes Mendes da Silva, Dr. Augusto Moita de Deus, Francisco Antunes dos Santos Trincão, José Manu
el Rodrigues, Dr. Pedro Gorjão Maia Salazar, Dr. Vicente de Sousa Vinagre, Artur Gonçalves. A revolução sidonista altera a situação. O medo de motins populares, com assaltos a estabelecimentos comerciais, leva o administrador do concelho a solicitar ao comandante do regimento de cavalaria uma força para impedir os assaltos aos estabelecimentos da vila. A 11 de Dezembro, Sidónio Pais forma governo. Ao derrotado partido democrático encerra as sedes, censura a imprensa, prende e exila os seus principais responsáveis, como Afonso Costa, obriga ao exílio o Presidente da República Dr. Bernardino Machado. Em Torres Novas é nomeado para administrador do concelho o Dr. Augusto Moita de Deus. Toma posse a 11, mas, discordando das medidas tomadas pelo governo, abandona o cargo a 26, sendo de imediata substituído pela major Joaquim Augusto Galvão. Por sua vez o comandante da escola de equitação capitão Artur Hintze Ribeiro Nunes é demitido, substituindo-o o tenente coronel António Fragoso de Óscar Carmona. Janeiro de 1918 inicia-se com o abandono da Comissão Administrativa pelos vereadores ainda em funções, assim como pelo presidente da Câmara Municipal Dr. Pedro Maia Salazar. O administrador do Concelho indica os nomes para uma comissão sidonista, constituída pelos Srs. Dr. João Martins de Azevedo, Olímpio José Monteiro, António Casimiro Serrão, proprietários; José Manuel Rodrigues, escrivão e notário; Luís de Albuquerque, solicitador, Manuel Lopes Duque Júnior, proprietário, Manuel Maria Maia, comerciante e proprietário, que toma posse a 12 de Fevereiro. De tudo o que se vai passando, O Torrejano vai dando notícia, condenando a ditadura sidonista e defendendo a democracia, que se encontra na prisão ou proibida. Até que a sua voz é também silenciada, publicando-se o último número em 10/2 /1918.
antoniomaro45@mai.com

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