Home > Saúde > De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

Colónias de animais de rua. A gestão deste problema cria sempre debate e, nos dias que correm, com a difusão da (des) informação, todos formam uma opinião que, nem sempre, será a mais rigorosa e ponderada. Para além da questão legal que todos conhecem e que muitos ignoram, hoje fazemos uma reflexão um pouco mais aprofundada deste grave problema de saúde pública. Começamos exatamente por aqui: saúde pública. Cerca de 70% de todas as doenças infeciosas emergentes ou re-emergentes são de origem animal. Sabia que, no pelo dos animais também se alojam ovos de um tipo de parasitas intestinais, os mais frequentes, as chamadas lombrigas? Sabia que essas lombrigas, uma vez ingeridos os seus ovos microscópicos, podem fazer migrações no ser humano e alojar- -se nos olhos, cérebro, fígado? E os distúrbios intestinais em crianças? Muitos ficam por diagnosticar e são provocados por um parasita, a Giardia. Sabia que não são só as carraças que transmitem doenças para o sangue, são também as pulgas e outros insetos? E ainda, sabia que a comida que muitas vezes é deixada na rua para os animais pode estragar-se e atrair insetos transmissores de doenças? A realidade dos animais abandonados é um flagelo. Abomino, com toda a força possível, o comportamento humano por trás desta atitude, e sei que os animais devem ser tratados e estimados. Mas creio: a questão da ilegalidade de alimentar animais de rua não se relaciona, como é mais fácil pensar, com o facto de ninguém dos que “mandam” gostar de animais. Relaciona-se, sim, com a proteção da saúde de todos. Senão vejamos: Quem alimenta animais de rua torna-se responsável por mantê-los cativos a um lugar. Mas a responsabilidade não serve só para o que interessa de modo individual, é universal. Por isso, quem alimenta, responsabiliza-se por desparasitar, colocando um comprimido na comida, por exemplo? Quem alimenta, responsabiliza-se por retirar os dejetos da via pública, que condicionam a saúde dos que por lá passam, sobretudo, crianças? Bem sei, há muitos animais aban- donados e poucos meios para os cuidar, e a gestão deste problema não é fácil. Mas uma coisa é certa: temos de ser coerentes. De nada serve alimentar animais sem os devidos cuidados de higiene e profilaxia. Não serve para eles, nem para nós, humanos. Já sabe: se decidir alimentar animais de rua, faça-o numa zona não urbana, e de forma cons- ciente e inteiramente responsável.

Telma Gomes

* Médica veterinária

telmaveterinaria@gmail.com

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *