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As Mulheres Torrejanas e a Grande Guerra (1)

Quando se aborda o tema da Grande Guerra (1914-1918), por negligência, esquecemonos do papel das mulheres durante o confl ito. Sem as iniciativas levadas a cabo pelas organizações femininas, no auxílio aos soldados e às suas famílias, os efeitos calamitosos provocados pela guerra atingiriam proporções de maior amplitude. Em diversos países constituíram-se enormes cruzadas femininas com o objectivo de socorrer os numerosos desvalidos e soldados, vitimados pelo confl ito bélico. Portugal não fugiu à onda de solidariedade feminina que eclodiu no velho continente. Sob a égide das mulheres portuguesas criaram-se grupos de apoio aos martirizados pela devastadora guerra.

Como foi o caso da “Cruzada das Mulheres Portuguesas”. Comissão fundada em 20 de Março de 1916, debaixo dos auspícios da primeira-dama portuguesa, Elzira Dantas Machado. A acção de benefi cência da “Cruzada das Mulheres Portuguesas” envolveria a maior parte das localidades do país. Torres Novas fi gura entre as terras que solidarizaram com a nobre causa das feministas. No periódico de Artur Gonçalves encontramos pormenores detalhados sobre o nascimento e as actividades desenvolvidas pela “Cruzada das Mulheres Torrejanas”. A primeira referência ao importante movimento feminino acontece a 28 de Maio de 1916. Data em que o jornal “O Torrejano” publicou, na primeira página, dois extensos artigos incentivando as mulheres torrejanas a colaborarem na ajuda humanitária e moral aos soldados portugueses que partiam para a guerra e aos seus desafortunados familiares (“ O Torrejano”, de 28 de Maio de 1916, Ano I, nº 22, pág. 1). Mas o envolvimento efectivo das Damas de Torres Novas
só acontece a 18 de Junho de 1916. Quando se procedeu à reunião, a convite do presidente da edilidade, Dr. Pedro Gorjão Maia Salazar, com o objectivo de dar seguimento ao apelo feito pela “Comissão de Propaganda da Cruzada das Mulheres Portuguesas” (a circular era do conhecimento da Câmara desde o dia 18 de Maio. Seria objecto de análise pela edilidade na sessão extraordinária, realizada a 2 de Junho). À assembleia, efectuada nos Paços do Concelho, compareceu um elevado número de mulheres torrejanas. As que não puderam estar presentes manifestaram, através de cartas, o seu incondicional apoio. Na reunião, Maria Ribeiro da Fonseca (mais tarde, após o seu segundo casamento, adoptaria o nome de Maria Lamas), deu conhecimento aos presentes de uma missiva da distinta republicana e feminista, Ana de Castro Osório, “pedindo-lhe a sua adesão e das senhoras que pudessem para a Cruzada.” Ao tomar conhecimento da referida reunião, logo de imediato, a torrejana ilustre prontifi cou-se a
persuadir as suas conterrâneas a aderirem à nobre causa. A troca de impressões entre os presentes redundaria no agendamento de uma nova assembleia, a realizar no dia 22 de Junho, pelas 14 horas, com o objectivo de efectivar
“os desejos da Cruzada “. Também no encontro foi nomeada uma comissão, composta pelas torrejanas D. Maria Ribeiro da Fonseca (Maria Lamas), D. Luísa de Bettencourt Ataíde, D. Higina Paiva Faria e D. Maria Elisa da Cunha Serra, para “estudar os alvitres que possam ser apreciados nessa reunião”. (“ O Torrejano”, Ano I, nº 26, de 25 de Junho de 1916, pág. 3). Na reunião, realizada a 22 de Junho, D. Bernadina de Faria Velês assumiria o cargo de presidente da “Cruzada das Mulheres Torrejanas”, por sugestão da Comissão instaladora. Para os lugares de vogais foram designadas as senhoras D. Cândida de Azevedo Mendes Dinis da Fonseca e D. Miquelina de Faria Rodrigues. Como programa, a então constituída “Cruzada das Mulheres Torrejanas”, adoptaria as seis sugestões elaboradas pela Comissão instaladora, da qual fez parte Maria Ribeiro da Fonseca (Maria Lamas). No seu primeiro ponto, propunha que se estabelecessem subcomissões com o objectivo de angariarem donativos em
dinheiro, roupas, etc. Já no segundo, era solicitado a cada senhora para que tomasse a seu encargo pelo menos dez sócios, com o propósito de contribuirem com uma cota mensal nunca inferior a §10 centavos ( duas semanas depois, o jornal “O Torrejano”, iniciava a divulgação das listas afectas a cada uma das senhoras torrejanas, com o nome dos seus beneméritos subscritores). ( “O Torrejano”, Ano I, nº 28, 9 de Julho, pág. 3). A necessidade de angariar fundos levou as mulheres torrejanas a assumir da propaganda das sessões cinematográfi cas da Empresa Nunes & Rodrigues. “Revertendo para a Cruzada a diferença da receita sobre a média em igual época do ano anterior”. A quarta proposta passava pela promoção um festival em recinto vedado, de entradas pagas, com vários tipos de diversões. Já no quinto ponto procurava-se estender as subcomissões a todas as senhoras de Torres Novas. Por último, foi proposto dar a conhecer à Comissão Central a instalação da subcomissão torrejana, “e de que todos os recursos obtidos [reverteriam] em benefício das famílias dos mobilizados do concelho” (“ O Torrejano”, Ano I, nº 26, de 25 de Junho de 1916, pág. 3).
(Continua)
Texto escrito com a antiga ortografi a.

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