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De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

Fim de ano. Momento de refletir sobre o ano que passou: as conquistas e as derrotas, os momentos de alegria e os momentos de tristeza. Recordações. E é recordando que hoje vos trago outro tema: o luto da morte de um animal de estimação. Sempre tive animais: cães, gatos, peixinhos dourados, bichos-da-seda, hamsters, canários, para além das galinhas, patos, perús e coelhos. Vivendo com animais vivos, sempre convivi com a sua morte. De cada vez que partia um animal de estimação, tinha o meu ritual: fazia o seu enterro no jardim, e colhia flores para marcar e embelezar o local onde havia “guardado” o meu amigo. Lembro-me de ser bem pequenina e de enterrar um peixinho no jardim. Era criança, sim, e aprendi que a morte faz parte da vida. Aprendi a aceitar e a seguir em frente, com amor no coração. O facto de reconhecer a inevitabilidade da morte não fez, porém, que deixasse de sofrer de cada vez que acontecia. No aspeto que hoje vos trago, este foi um ano particularmente difícil: perdi duas gatinhas, a Malagueta e a Pulga, retiradas da rua bem pequeninas. Alimentei-as, acarinhei-as. Em troca, ofereceram-me o seu ronronar (som que os felídeos produzem sobretudo quando se encontram satisfeitos, ou tranquilos: começam a emiti-lo enquanto bebés, durante a amamentação ou quando a mãe os acaricia), e muitos momentos de alegria e brincadeira. A morte delas foi chocante: nada o fazia prever e eram ainda muito jovens. No calor e na dor do momento, questionei tudo, particularmente o porquê de as recolher – talvez se não as recolhesse, elas ainda estivessem vivas. Determinei que nunca mais recolheria um animal da rua para minha casa, alterando o seu destino. Fiz o meu luto. Doeu, chorei. Ultrapassada a dor, percebo que fiz as perguntas erradas. Recolhi-as da rua, sim. Dei-lhes alimento, que não deveriam ver há dias, dei-lhes calor, permiti-lhes conhecer o lado melhor dos seres humanos. Embora tenham tido uma vida curta, sei que foi boa. Ao contrário de nós, humanos, os animais não têm uma noção de futuro: não fazem planos, não tencionam viver uma vida longa. Tencionam, apenas, vivê-la felizes, dia após dia. Temos tanto a aprender com eles! Não vos posso dizer como viver e ultrapassar o luto. Mas posso dizer-vos isto: podemos sempre recomeçar, e os animais merecem que o façamos. Permitirmo-nos amar outro animal, depois de uma perda, não significa esquecer aquele que partiu. Significa honrá-lo, com amor. Há muitos que esperam por essa vida feliz. No novo ano que começa, vamos deixar-nos tocar por eles?

* Médica veterinária telmaveterinaria@gmail.com

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