Home > Colaboradores > António Mário Lopes dos Santos > «Lapsos» de Artur Gonçalves

«Lapsos» de Artur Gonçalves

A efeméride da revolta de Sidónio Pais, a 5 de Dezembro de 1917, trouxe-me à evidência o manto de silêncio com que, localmente, a história concelhia cobriu o acontecimento. E não só esta revolta, como a anterior, a 20/1/1915, mais conhecida pelo movimento das espadas, que, sob a responsabilidade do Presidente Manuel de Arriaga, levou ao poder o general Pimenta de Castro. Raramente, já depois de Abril e do ressurgimento dos estudos históricos concelhios, por acção camarária e, posteriormente, da revista Nova Augusta, estes acontecimentos (como tantos outros!), não mereceram um olhar atento. Causou-me ini- cialmente estranheza que Artur Gonçalves, secretário da Câmara Municipal de Torres Novas desde 7 de Maio de 1914, mas só tomando posse a 4 de Junho (Actas Camarárias, fls. 31), não tenha citado as duas efemérides nas suas obras, nem nos Anais Torrejanos. Mas, sabendo-se que aquelas são todas publicadas a partir de 1933, os Anais em 1939, em plena fase da confirmação da ditadura salazarista, por uma Câmara totalmente dominada por figuras do Estado Novo, percebe-se que para o republicano radical, e da tendência do PRP de Afonso Costa, que elogia e defende no seu jornal O Torrejano, inclusive em plena ditadura sidonista e que leva aquele à suspensão em Março de 1918, esses acontecimentos a que se opôs, como membro da Centro Democrático 5 de Outubro, e Presidente da Comissão Municipal Republicana, em Outubro desse ano (O Foco nº97,16/10). Ambos são movimentos anti partidários, de tendência ditatorial, ainda que não reneguem a república. Mas, quer o Movimento das Espadas, quer a revolução sidonista são consequência da declaração da intervenção de Portugal na 1ª Guerra Mundial, ao lado dos aliados, que conduz à conjugação dos oficiais, em grande parte monárquicos, mais preparados para paradas do que para a Guerra, com os proprietários agrícolas, os católicos, o operariado, os republicanos do Intransigente de Machado Santos, de parte dos unionistas e evolucionistas, que conduziram, a partir de 1915, com agravamento social e político em 1917, devido à carestia de vida, da escassez dos géneros alimentícios, dos custos da guerra em três frentes (Angola, Moçambique, França), a uma situação de total ruptura económico-social, que os governos de então, não souberam resolver. Artur Gonçalves, que viveu os acontecimentos, leitor e cole- cionador de jornais, não ignorava a carta de apoio dos oficiais da Escola de Equitação dirigida ao Presidente da República, que, pelo seu interesse histórico, se transcreve: «Convictos de que o movimento realizado por um grande número de oficiais da guarnição de Lisboa não presidia a qualquer ideia política contrária às instituições vigentes, antes foi ela ditada pelo brio, pundonor militar e boa camaradagem impostos a todos que se honram de vestir uma farda, declaramo-nos solidários com as intenções dos nossos camaradas. Major Eduardo Valadas (comandante da Escola de Equitação), capitão Correia Guedes, capitão Luís de Menezes, capitão Hintze Ribeiro (director e um dos donos do semanário O Fóco), capitão Madureira, capitão Carvalho, tenente Santa Clara, tenente Azambuja, tenente Oliveira, tenente Barata, tenente Ramires, tenente Moura, tenente Rui Menezes, tenente Botelho, tenente Mesquita, alferes Delgado, aspirante Silveira, aspirante Craveiro Lopes, aspirante França, aspirante Rosado Ferreira, aspirante Vilardebó, aspirante Gorgulho, aspirante Figueiredo, aspirante Portela, aspirante Zuzarte, aspirante Pedreira» Não é um abaixo-assinado unânime, porque lhe falta, pelo menos, a assinatura do tenente Teófilo Ribeiro de Carvalho, que aliás, se oferecera como voluntário para participar na frente de guerra (O Fóco nº54, 31/10/1914). Artur Gonçalves também não podia ignorar a revolta sidonista, de que era contemporâneo, e criticara no seu periódico, sofrendo inclusiva a sua suspensão. Só que os acontecimentos do 28 de Maio, a sua suspensão de secretário da administração, os processos que lhe levantaram, mesmo que, depois, provada sua inocência, que o obrigou, por doença, à reforma em 27 de Setembro de 1934, o levaram a uma situação em que terá decidido não escrever sobre os momentos vividos. Se acaso o fez, nalgum registo memorialístico, este nunca chegou ao conhecimento público. antoniomario45@gmail.com

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *