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Eu também não quero ir para Abrantes

Passei boa parte da minha vida em perfeita e total saúde, isso me fez esquecer que estou a envelhecer, não apenas totalmente, mas, lenta e parcialmente. Esse estado, numa vida plena e agitada como a minha, agora à pouco, provocou-me essa reflexão: Durante os meus tempos de Universidade Católica, por quatro anos fui convocado para a seleção principal de futebol daquela instituição. Por ser um jogador rápido, com pontapé forte, na minha posição, fui sempre titular respeitado. Agora veterano e depois de tantas contusões, aqui em Portugal, sou reserva de uma bola que se joga na Golegã e com a minha lisonja vem a frustração, ao recordar o meu último jogo. Numa ocasião, subitamente, um dos meus adversários, grande e forte, descansado e vigoroso, para fazer-se de ousado e ultrapassar-me, jogou a bola à minha frente como quem aposta uma corrida, sem impelir-me as rédeas, pus-me a correr quando os meus joelhos vacilaram e como um colosso, desabei no chão duro, fulminado com o meu peso, caí com o rosto no chão. Estendido, sem movimento, nem perceção; não mais vi o que aconteceu. Essa outra recordação trago-a agora, fortemente, escrevendo nesta à Janela. Deu-se quando eu era seminarista e aprendi a levar na mão uma bengala do meu pai. Procurando a elegância e postura refinada: encontravam-me assim em vários lugares. Muitos me advertiram de que um dia a idade transformaria esse capricho em necessidade. Tranquilo não dei ouvidos. Agora, quando me começam a faltar as pernas ao correr, eis aqui a lembrança dessa bengala, que me fez sair do assunto. Quanto às reflexões que tiro da dor, elas nasceram na mesma progressão que medito sobre o estado daqueles que se encontram a desfalecer de fraqueza na agonia do tempo, e afirmo que os lamentos não são sem motivo. Contudo, ainda posso caminhar, e agora refeito do tombo que dei, lúcido, deixo aqui este apelo quando as forças me faltarem: “Não me levem para as urgências de Abrantes”. Durval Baranowske, diretor

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