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Carta Inédita de Maria Lamas ao “Diário de Lisboa”

No dia 16 de Julho de 1959, o jornal “ Diário de Lisboa” dava início à publicação de um arrojado artigo sobre “As Carreiras Femininas em Portugal”. Dividido em quatro partes, o texto oferecia ao leitor uma resenha histórica da caminhada da mulher para a igualdade com o homem. Dando especial relevo à evolução dos direitos femininos na sociedade portuguesa. Para o autor a nova época que se avizinhava iria reparar as injustiças da História em relação à mulher, colocando-a em pé de igualdade com o homem. Um processo irreversível que a todo o custo o Estado Novo tentava retardar. Conseguindo o regime, deixar de fora da nova vaga dos direitos feministas, as domésticas e as trabalhadoras manuais. Fadadas pela força das circunstâncias ideológicas a terem uma vida dura e aviltante. Com a agravante de auferirem baixos salários. Esta vergonhosa situação era prática comum nos sectores da agricultura e da indústria, onde as mulheres carregavam a iníqua injustiça de chegarem a receber metade dos valores auferidos pelos homens, no exercício de idênticas funções “Diário de Lisboa”, de 17 de Julho de 1959, nº13148, pág. 11). No caso das domésticas a iniquidade atingia proporções mais gravosas. Muitas delas não chegavam a receber qualquer tipo de renumeração ou protecção social. Fruto da acção de algumas destacadas feministas a pouco e pouco caía por terra, na sociedade portuguesa, as preconceituosas imagens da mulher como “fada do lar” ou do “rumor das saias de Elvira” (op. cit. pág. 1). Um longo historial de vozes femininas ergueu-se, em Portugal, na luta pela emancipação da mulher. No século XX destacar-se-ia, entre outras, a escritora Maria Lamas. Logo na primeira parte do artigo o autor faz referência ao papel importante da escritora torrejana no processo da evolução da condição feminina, através da transcrição das impressões sentidas por Maria Lamas no “Congresso Internacional das Mulheres”, realizado em Copenhaga, no ano de 1953. Um encontro em que participaram – segundo a torrejana ilustre – 2.100 mulheres oriundas de 74 países (esta informação vai mais longe da que consta no jornal clandestino “ O Avante”, nº 178, de Julho de 1953, pág. 1 – refere a presença de 1863 delegadas de 67 países). No Congresso, Maria Lamas faria uma intervenção em nome das mulheres portuguesas, reivindicando para todas o direito ao voto, a salários iguais no desempenho das mesmas funções que os homens, à dignificação do seu papel na sociedade portuguesa, ao acesso da mulher à educação e à cultura, a usufruirem de melhores condições no trabalho… Segundo a torrejana ilustre «este Congresso, de expecional importância, [permitiu] avaliar a situação feminina mundial na hora presente e os problemas das mulheres de cada país, expostos por elas próprias. No ambiente grandioso e profundamente impressionante daquela sala, [houve] por momentos a sensação esmagadora da injustiça e do sofrimento que ao longo de milénios e milénios têm ferido e ferem ainda, na maior parte do Mundo, a metade feminina do género humano. Mas quando algumas mulheres [falaram] da sua vida dignificada, dos seus direitos reconhecidos, da sua confiança no futuro, por elas e pelos filhos, a atmosfera aligeirava-se e perpassava nos espíritos uma nova claridade, uma esperança mais viva, um sentimento de inquebrantável solidariedade e uma firme decisão de continuar o bom combate».
Relegada ao silêncio pela forte vigilância e censura do Estado Novo a transcrição das suas palavras, no jornal “Diário de Lisboa”, teria a virtude de desencadear na escritora torrejana o reconhecimento pela lembrança do seu papel na luta pela emancipação da mulher. Pormenor referido pela escritora ao chefe de redacção do jornal, numa carta inédita datada a 20 de Julho de 1959. Foram estas as suas palavras: “ Exmo Senhor Chefe de Redacção do DIÁRIO de LISBOA: Venho agradecer a V. Excia a publicação duma referência ao meu nome e transcrição dalgumas palavras minhas no artigo AS CARREIRAS FEMININAS EM PORTUGAL (1) que saiu no vosso jornal no passado dia 16. Peço-lhe ainda o favor de transmitir este meu agradecimento à pessoa que escreveu o artigo, pois ignoro quem tenha sido, afirmando-lhe que me sensibilizou o facto de alguém se lembrar de mim, quando é certo que há tanto tempo me encontro afastada do convívio de Amigos e Camaradas, embora se mantenha bem viva a minha estima por todos e o meu interesse por tudo quanto se passa no nosso País e no Mundo. Sou, com elevado apreço de V. Excia Mto atenta e grata Maria Lamas” O “afastamento do convívio” a que se refere a torrejana ilustre é o do exercício da activiade de jornalista, na revista feminina “Modas e Bordados”. Cargo que foi obrigada a abandonar por pressão do regime fascista. Isto porque recusou liminarmente a demitir-se da presidência do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. Entidade que esteve por detrás da censurada iniciativa cultural “Exposição de Livros Escritos por Mulheres”. Efectuada na Sociedade das Belas – Artes, em 1947.

Texto escrito com a antiga ortografia.

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