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Carta a D. José Traquina

Dom José Traquina, chegastes a Santarém depois de um longo verão, que deixou suas marcas. O verão deste ano recusava-se a aceitar os sinais dos tempos. Mas chegou o momento e o verão se encontrou com o outono. O fim do verão diz-nos que somos seres crepusculares, outonais. Quem quer que pare para olhar as folhas no chão perceberá que, o outono, nos fala do fim. Nada mórbido. É a natureza. E cada momento é único. Não há tempo para ter medo. O inverno é gelo, a primavera ar, o verão fogo e o outono abismo. É preciso olhar para o abismo face a face, para compreender que o outono já chegou e que a tarde já vai caindo. Cada momento é crepuscular. Cada momento é um mestre silencioso. E o nosso momento anuncia um iminente abismo. Todos nós, todos os anos navegamos para os mesmos lugares: ginástica litúrgica, pastoral obediente, teologia tradicional, “direito do canónico”, lamento dos carentes, discursos que não servem para nada. Todos os anos morremos na praia. Mas há uma alternativa e ela está no mar. Como seria se fizeres diferente? Pegar na sua barca e lançar-se ao abismo do mar? Deus criou o céu, a terra, o ar, o mar e o abismo. Deu ao homem a terra firme. Mas o mar absoluto só deu a poucos a vontade de desbravar. Então, para muitos ou quase todos, o melhor mesmo é navegar por mares sem perigo! E de tanto caminhar pelas margens os nossos olhos ficaram parados, como as águas de um lago, nada de novo vêem, e quando veem ficam assustados. Mas Deus também criou o perigo e o abismo que mora no fundo do mar. E é só nele que se espelha o céu. Quem viu o céu espelhado no abismo e no perigo, esse terá para sempre, no olhar, o brilho da eternidade. E poderá ver com outros olhos. Os olhos de quem aprendeu as lições de abismo. É preciso ter cuidado com as margens. Elas nos levam à repetição, à segurança, à cegueira, ao bloqueio eclesiástico, sem ideias próprias, sem criatividade, sem alegria. Das margens oiço dizer: Que Jesus não chamou ninguém de raposa. Que o homem rico não precisa repartir. Que as mulheres adúlteras não tem perdão. Que só os confessos, podem comungar… Dom José, sabedoria é contemplar o abismo, sem ser destruído por ele. Oiça o que diz: “Toca para o abismo” (Lucas 5,4). Disso depende nossa esperança, que das margens não podem mais esperar.
Durval Baranowske, diretor

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