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Nos Quatrocentos anos dos Cruzeiros Torrejanos

Símbolo da presença do Eterno na vida humana, o aparecimento do cruzeiro remonta aos primeiros séculos do cristianismo. A cruz que antes servira de instrumento de suplício (nela era atado o réu para o deixar morrer à fome e à sede) foi então elevada, pela morte de Cristo, a sinal de Triunfo e de Redenção. A sua presença expandiu-se por todos os locais da cristandade adoptando, em alguns casos, a forma do vulgar cruzeiro. Em Portugal encontramo-los alçados nas ruas, nas estradas e, principalmente, nos adros das igrejas. Os cruzeiros espelham a humilde devoção e crença do nosso povo. Inscrita, ao longo dos tempos, na forma tosca e singela em que foram edificados. Em seu torno desenrolavam-se as festas religiosas das paróquias. Signo indelével da aura mística que o cruzeiro outrora irmanava. Quando por ele o humilde povo passava, em sinal de veneração, tirava o chapéu ou simplesmente rezava. Os cruzeiros também foram utilizados com o propósito de delimitar o espaço territorial pertencente à igreja. Provavam o seu domínio, evitando deste modo qualquer tentativa de alienação ou usurpação do seu espaço sagrado. Por vezes o cruzeiro servia de local de refúgio e asilo para as almas transviadas. Sob o território protegido pela cruz não havia lugar a execuções da justiça ou de jurisdição. No concelho de Torres Novas, espalhados pelas suas freguesias, encontramos vários exemplares destes simples testemunhos da fé humana. A maior parte data dos séculos XVII e XVIII. Embora existam registos de alguns feitos em épocas posteriores e também anteriores. Como sucede com o cruzeiro da Misericórdia, cuja edificação remonta ao ano 1572. Já no século XX podemos referir o da Senhora de Lourdes, em Outeiro Grande (1925). O valor artístico dos cruzeiros é heterogéneo: vai desde a simples pedra em forma de cruz, despida de ornamentos, até aos exemplares bem esculpidos, onde, por vezes, se encontram desenhados os símbolos da Paixão. Fundamentalmente o cruzeiro vale pela enorme crença e religiosidade que infundem. Alguns foram erigidos pelo povo em jeito de prece pelas Almas, como são os casos dos cruzeiros de Assentiz, Marruas, Fungalvaz e da Cruz de Pedra… Outros evocam epidemias que assolaram o nosso concelho – o cruzeiro de Chícharo foi erguido para esconjurar a filoxera que dava cabo das vinhas. Na rua de Santo António há um cruzeiro bastante invulgar, que se encontra inacessível aos olhares frenéticos do vulgar transeunte. Para o ver é necessário percorrer a via com enorme atenção, de forma a podermos dar conta das irregularidades que saem de uma das paredes da via. Só assim conseguimos vislumbrar o magnífico cruzeiro, com os símbolos da Paixão, que se encontra embutido num dos muros que dão acesso à entrada do pátio da rua do santo padroeiro. É conhecido por Cruz do Negro. Foi erigido em 1633, com o intuito de assinalar a morte de alguém. Muito antes da insensibilidade humana o estrangular entre blocos de pedra e de argamassa. Esta incursão pelos cruzeiros torrejanos poderia levar-nos a outras paragens do concelho, onde se encontram edificados semelhantes testemunhos de fé, dignos de referência. Mas o nosso humilde propósito não passa por aí (está por fazer a sua História). Serve apenas para assinalar os quatrocentos anos dos cruzeiros de Ribeira Branca e de Valhelhas. Erguido na imediação da igreja matriz o cruzeiro de Ribeira Branca (1617) enquadra-se no tipo de marco de propriedade ou de jurisdição religiosa. É suportado por duas bases de pedra lisa. A primeira, mais larga, apresenta-se sob a forma de um círculo com alguns centímetros de altura. Já a outra estrutura dá a ideia de um cone com uma pequena tampa sobreposta, onde está inscrita a data da edificação do cruzeiro. No cimo do pretenso sólido geométrico irrompe a delicada cruz com os seus braços cilíndricos e canelados. Expandido à sua volta a luminosa claridade da fé. A vários quilómetros de distância da Ribeira Branca, na aldeia de Valhelhas, foi alçado, no mesmo ano, um outro cruzeiro. Une-os o facto de estarem situa dos nas imediações da igreja. Mas entre os dois padrões religiosos há grandes diferenças: o cruzeiro de Valhelhas é suportado por três bases. A forma rectangular predomina nas duas primeiras estruturas de pedra, tomando a última a configuração piramidal. Sobre ela assenta uma cruz lisa e espalmada, de onde saem dois braços largos e curtos. Um pouco acima do seu começo encontra-se inscrita o ano de 1617. As insígnias da Paixão acompanham a parte do tronco do cruzeiro que está voltada para o exterior. Quatrocentos anos nos separam da data em que o povo simples, das duas aldeias do concelho, erigiu estes singelos testemunhos de fé e devoção religiosa. Apesar da sua provecta idade o visitante hodierno é tocado pelo harmonioso cenário que envolve os ancestrais cruzeiros, edificados nas imediações da igreja. Espaços espiritualizados pela bênção do Redentor que um dia pereceu na Cruz para Salvação dos Homens.

Texto escrito com a antiga ortografia.

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