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Fenómeno torrejano e a medalha que não merece ganhar

Os acontecimentos trágicos que marcaram o nosso concelho nas últimas semanas, protagonizados por supostas tentativas de suicídio, impuseram à nossa redação alguns questionamentos de carácter moral. É certo, entre jornalistas e profissionais de saúde, que a publicação sucessiva de fatores suicidógenos, motivam outros novos casos. Ciente dos seus deveres, ao contrário das acusações apressadas, O Almonda resolveu criar distância dos factos, para nesta edição refletir sobre o caso protagonizado por uma jovem atleta e uma senhora idosa, nas águas do nosso Rio. O caso suscitou-nos um tipo de lenda digna d´O Monge:
De passagem à beira do Rio, um grupo de atletas dirige-se para mais uma competição. De repente, um mergulho trinca o silêncio. Assustam-se. Olham para a frente, olham para trás. Nada. E quando menos esperam, a correnteza trazia uma mulher. A grande atleta, o futuro prematuro de medalhas do grupo, salta na água fria do Rio. Mal consegue salvar, com muito esforço, essa senhora, quando ela ouve mais berros e vê mais dois idosos a debater-se na água. Desta vez apenas uma é resgatada. Aturdida, ela ouve uma gritaria ainda maior. Dessa vez oito seres vindo corrente abaixo, um deles é uma criança de berço. E é aí que chega o monge. Olha para o esforço da campeã, vira as costas ao Rio e começa a ir-se embora. O treinador do grupo exclama: – Você está louco? Não vai ajudar? Sem deter o passo ele responde: – Faça o que puder. Vou tentar descobrir quem está a atirar as pessoas ao Rio.
Essa nossa “estória” retrata como nos sentimos em Portugal. Temos poucos braços para tantos afogados. Mal salvamos um, vários descem Rio abaixo, numa corrente incessante de apelos e mãos estendidas.
Somos obrigados a saltar na água e, ao mesmo tempo, sair à procura de quem atira as crianças e os velhos ao Rio. Incrível é como os homens, às margens do Rio, conseguem conviver com os berros. E até dormir sem sobressaltos. É como se não ouvissem. Descobrimos que os responsáveis pelos afogados não estão escondidos Rio acima. Estão ao nosso lado e, muitas vezes, aplaudem o ato heróico da nossa jovem campeã e dão-lhe medalhas…
Agora, quem são os afogados? – A resposta é óbvia: São os jovens desempregados. São as crianças sem futuro. São os velhos abandonados. E, é preciso mesmo infinita paciência, com renovada esperança a cada salvamento, para que se possa conviver com a apatia cúmplice de uma sociedade que se afunda, enquanto nós fingimos que não.
Por sorte temos campeões como a menina Nádia, dia após dia, a mostrar como a solidariedade ainda vive nos homens. Mas é doloroso ver no peito de uma criança campeã, não a medalha que ela sonhou ganhar, mas a medalha que ela não merece ganhar, a medalha da nossa vergonha. Durval Baranowske, diretor

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