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Sobre os mortos e meu pai

Meu pai viveu toda a vida no Brasil. Dele,guardo uma folha de jornal. Nesse macarrão de jornal está um artigo que traz no título: “Morreu Bodinho, o craque da pelota”. Ao deparar-me com outra foto do meu pai, senti saudades. É que estou a ficar velho e a saudade é uma espécie de velhice. Os olhos dos velhos estão cheios de saudade.
Ainda menino, meu pai, Jorge Baranowski, ganhou uma alcunha do meu avô. Ele o chamou de “bodinho” e assim meu pai ficou conhecido. Só pude compreender a origem dessa alcunha há pouco tempo.
É que no idioma polaco Baran – de Baranowski – é o mesmo que bode. Esse é o nosso sobrenome, Baranowske, ou seja, pastores de bodes.
A maior paixão de meu pai, principalmente na juventude, foi o futebol, seu desporto preferido e de toda a gente no Brasil. Quando foi criada a ADJ, para disputarem o campeonato nacional, o meu pai foi convocado
para compor a equipa, mas não aceitou. Estava com 36 anos e tinha receio de disputar a posição da sua preferência, a camisa dez, com jogadores mais jovens. A bem da verdade, Bodinho, sempre preferiu o Sporting
Clube Granjas Reunidas. “Começou pelas categorias de base (infantil e juvenil), chegando ao time profissional. E isso tudo, quando chegou ao apogeu da sua carreira futebolística”. Nunca o vi jogar, quando nasci, ele tinha encerrado a carreira, mas dizem que foi um astro da bola: “Tinha a maestria de colocar a pelota, principalmente nas faltas batidas, onde queria. A sua certeira e famosa perna esquerda era o terror dos goleiros da época”. (Copiei do jornal que guardo). Tempos depois foi convidado para assistir à final de um torneio. Eu tinha dez anos de
idade e ele levou-me ao estádio. Esperava ser homenageado caso o ADJ ganhasse o campeonato. Queria que eu sentisse orgulho dele. Mas após a partida foi-nos negado acesso ao restaurante e à confraternização.
Aquilo desapontou profundamente meu pai. Depois disso, ele nunca mais foi a um estádio de futebol.
Muito cedo fui para o seminário e meu pai sofreu uma hemorragia cerebral. Desde então, o seu estado de saúde piorava a cada ano. Quando morreu, eu estava em Salvador, na Bahia. Andei a noite inteira pela praia de Itapuã, onde Vinicius e Toquinho compuseram seus hinos de amor. Era professor de filosofia e não mais usava rezar…
Quando passei três noites e três dias sem dormir, decidi rezar pelo meu pai: foi uma oração breve. Mas era tudo o que ele queria de mim. Depois voltei a dormir.
Nestes primeiros dias de novembro, em que lembramos dos nossos entes queridos, sinto falta do meu pai, da simplicidade do seu mistério. Uma folha de jornal e uma foto é tudo que tenho dele. Mas, se céus houver, espero que lá haja homenagens e que os jantares sejam fartos e gratuitos.
Que haja também futebol, pois ainda quero vê-lo jogar…

Durval Baranowske, diretor

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