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De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

Muito se tem falado ultimamente na discussão tida na Assembleia da República em relação à permissão da entrada de animais, acompanhados pelo seu detentor, em estabelecimentos comerciais. À semelhança do que acontece noutros países europeus, como Suíça, Alemanha, Itália, entre outros, pretende-se, com os projetos diferentes de três partidos (PAN, BE e PEV) que ainda se encontram em discussão na especialidade, criar a possibilidade de um animal entrar num restaurante, num hipermercado, ou noutro espaço comercial. À parte do manifesto “jeito” que dá, poder entrar com o meu cão no supermercado, sem ter de o deixar no carro, ou preso a um poste, esta possibilidade leva-me a levantar algumas questões: quem irá controlar o estado de saúde e profilático do animal? Quem irá controlar se o animal está desparasitado adequadamente, se o animal tem as vacinas em dia? Certamente, não será o proprietário do estabelecimento comercial… E quem irá saber se aquele animal que entra pelo restaurante está devidamente treinado em termos de obediência, para não importunar outros clientes? Penso nisto, quando vejo detentores que entram com os seus cães, soltos, no veterinário, sem se preocuparem que outros animais lá estejam e possam reagir. Penso nisto também, quando, no momento em que o cão se lembra de alçar a sua pata na sala de espera e marcar o seu
território (pode acontecer, há muitos cheiros, e um cão que não esteja educado não adivinha), o seu detentor vira a cara para o lado e não informa a equipa para que se proceda à higienização. Também penso nisto quando, uma noite, numa urgência bem de madrugada, uma detentora se lembrou de soltar o seu gato saudável na sala de espera e tivemos de andar às três da manhã à procura do seu gato, porque “não valia a pena segurá-lo, e estava no seu direito soltá-lo”. Não sou contra esta lei – que ainda não foi aprovada e não sabemos bem em que moldes se irá coser – mas sou contra medidas desenvolvidas em secretária, numa redoma de vidro, sem contextualização prática e real. Estéreis. Não se deveria tratar apenas de permitir que os cães possam entrar nos restaurantes: deveria tratar-se, sim, de fomentar os cuidados médico-veterinários e a implementação do conceito: “animais+humanos=uma só saúde”, deveria tratar-se de mudar mentalidades, deveria tratar-se de aumentar a vigilância e fiscalização. Quando todos temos direitos, é fácil esquecer-mo-nos de que “o meu direito” é também o direito do outro – e isso transforma o meu direito num dever. Que seja essa a lei, antes das demais.
* Médica veterinária telmaveterinaria@gmail.com

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