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Quando os mesteirais sobem ao poder autárquico

Nas vilas medievais o poder autárquico assentava na assembleia do concelho que elegia anualmente dois juízes ordinários, o procurador do concelho e os almotacés. Todos esses elementos saíam da classe dos cavaleiros-vilãos, proprietários e classe burguesa nascente, dos letrados, que constituíam a nobreza concelhia. Nas cortes, os seus procuradores eleitos apresentavam aos reis os seus capítulos (pedidos e reclamações), que assentavam na defesa dos seus interesses, nomeadamente sobre os impostos que sobrecarregavam a produção agrícola ou criação de gado.
Ficavam de fora dois grupos, os mesteirais, dos ofícios mecânicos do artesanato e indústria e a arraia miúda, os serviçais e afins, os cavões, os limpadores de ruas e outros. Se estes últimos, nas histórias, raro sobressaíram, ainda que levassem em Lisboa o mestre de Avis ao poder, os mesteirais foram aumentando nas zonas urbanas o número, o prestígio e a necessidade, pela sua produção e importância no desenvolvimento urbano. Ganharam força nos séculos XIV e XV. Em Lisboa a partir da carta régia de 1384, que tornou obrigatória a representação dos mesteirais em certas de
liberações da Câmara. Tornou-se evidente a sua importância e implantação no país com o apoio manifestado e recebido de D. Pedro. Mas, após a morte deste em Alfarrobeira, só se manteve em Lisboa. A burguesia e os cavaleiros vilãos olhavam-nos como adversários na administração autárquica, já que não controlavam as suas organizações, quer profissionais, as corporações de artes e ofícios, quer religiosas, as confrarias.
Lisboa foi a regra do país. A sua organização, por mester, em mestres, oficiais e aprendizes, a seu enquadramento arruado (por ruas próprias), a sua assembleia dos 24 mesteirais, a Casa dos 24, implantou-se no país, de modo desigual. Nas cortes de 1481/1482 todas as câmaras protestam contra a sua influência, tendo D. João II aceite a sua exclusão de todos os municípios, com excepção da capital.
Torres Novas, donatária das casas das rainhas e, a partir de 1500, de D. Jorge de Lencastre e de seus sucessores da casa de Aveiro, só viu os seus mesteirais ganharem o direito de elegerem os seus dois representantes à Câmara, nas Cortes de Lisboa de 1641 e 1642, mas que a dona
tária D. Ana Manrique de Lara, tutora de seu filho menor o duque de Aveiro, D. Raimundo de Lencastre, impediu, o que contribuiu para novos capítulos em 4 de Dezembro de 1642, a que o rei repete a aprovação. «Padesse o Povo miúdo da ditta Villa grandes moléstias e vexações dos poderosos por falta de misteres homens do Povo que acudam à defensam dos pobres; e tendo-lhe VMgde, feiro mercê que eles tivessem doze eleytos repartidores assy é da mesma maneira que os tem Abrantes e Tomar, aonde do sditos dois vam à Camara assistir dous como mesteres, não foram a isso admitidos, e se lhe impidio com o poder e valia que tudo atropella.» O problema da guerra com Espanha, a necessidade de dinheiro e soldados para a defesa do país, leva D. João IV a ceder, mais ainda quando, mais tarde. O Duque de Aveiro se coloca ao lado dos espanhóis, tendo cessado a doação régia de Torres Novas em 1663, incorporada nos bens da Coroa. até 1684, quando é reconhecido após pleito judicial como donatário de Torres Novas D. Pedro de Lencastre, regressando até ao marquês de Pombal , à casa de Aveiro. Os mesteirais, a partir de então, participam na vida autárquica.

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