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O que é a vida de um ser humano?

Já tive medo de morrer. Hoje tenho mais medo de voar de avião do que de morrer. O que comprova que para nossa existência, a morte não é o maior dos males, mas a causa dela sim. Tenho medo de voar de avião, o que sinto é uma enorme fobia das alturas. Lá em cima, eu fico a imaginar se depois de muito voar haverá ainda algum lugar na terra onde eu possa pousar, recomeçar e ser mais feliz. Na verdade eu não tenho medo da morte. Eu tenho medo é de morrer de acidente aéreo. Medo de ser surpreendido por um equivoco qualquer que me impeça de compor minha inacabada poesia, pedir perdão, fazer a minha última confissão. Tenho medo do acidente que me deixe sem esperanças. Mas também tenho medo de vir a morrer acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo. Tenho medo de morrer na solidão. Medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, a morte me acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, no meio das pessoas que me amam, no meio de visões de beleza e paz. Mas a contingência não entende isso. Comoveu- -me profundamente o drama das vitimas do fogo de Petrogão Grande,. “Vítimas de um acidente criminoso, dizem…”. Como é que as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusaram a aprender com os erros, repetiu-se no último domingo, um novo fogo, que devastou Portugal, com um fechar de um maldito verão. Dir-me-ão que é dever do Estado fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, por isso pergunto ao Primeiro Ministro de Portugal: O que é a vida? Mais precisamente o que é a vida de um ser humano? – Confesso que, na minha experiência, nunca me encontrei com a vida, a morte e a demagogia de forma tão crua. Penso que permanecemos na vida enquanto existir em nós a esperança da beleza e da alegria. Cercados pelo fogo, morre a possibilidade de sentir alegria outra vez ou gozar a beleza, o ser humano se transforma em alma e os demagogos em demónios. Dizem as escrituras sagradas: “Para tudo há o seu tempo. Tempo de nascer e tempo de morrer”. Para o autor santo, a morte e a vida não são contrárias. Para são Francisco são irmãs. Mas há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está a nascer. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Essa dor que o fogo criminoso do verão de 2017 provocou, não faz sentido, talvez por isso, dói tanto. E nos impõe dias de silêncio…

Durval Baranowske, diretor

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