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Da noz o figo é bom amigo

Primeiro apanhavam-se os figos depois as nozes. Aqueles comiam-se frescos, lampos, pingo de mel, ou secos, pretos de Torres Novas. Estas varejavam-se ainda vestidas de verde embora já a espreitarem por entre a casca. Os figos secavam na eira em tabuleiros, maiores que macas, empilhados, ao entardecer, para que a humidade da noite não estragasse o trabalho do sol. As nozes também se secavam nos mesmos tabuleiros mas era preciso cuidado ao descascarem-se pois encardiam as mãos de tal forma que nem o sabão as limpava. À figueira, árvore pequena, faziam-se podas de formação para crescer sem ramos embaraçados uns nos outros de tal forma que, ao cobrir-se de parras, o sol chegasse a todos os frutos. À nogueira, árvore grande, tiravam- -se apenas os ramos secos deixando-a crescer, e apenas após a apanha das nozes para não sangrar. As duas árvores, mais a figueira que a nogueira, deram nome a Torres Novas, quando se fazia aguardente. Agora, as figueiras são uma sombra dos figueirais de outrora embora o figo fresco seja caro (este ano nas grandes superfícies, pouco e com mau aspeto, chegava a custar €5,99) e o seco tenha a vantagem de poder conservar com facilidade. Já a nogueira parece que está a voltar: pelo concelho, vão aparecendo alguns nogueirais recentes. São árvores que acarinharam a minha infância: lembro-me como os figos eram transportados para a eira, nos carros de bois, e como as nozes eram ensacadas em sarapilheira. Esta é a identidade de Torres Novas reforçada pela feira dos frutos secos, embora, com mágoa o digo, sem que consiga ainda dar a devida projeção a estes produtos típicos, tão nossos, levando-os além fronteiras.

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