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Compromisso social dos cristãos

O falecimento de Dom Manuel Martins, conhecido bispo emérito de Setúbal, foi oportunidade para lembrar o contributo que, na sua passagem pelo mundo, deu à Igreja e à sociedade. A comunicação social realçou, de facto, a sua intervenção social em favor dos direitos humanos, da justiça, das condições de vida dos mais desfavorecidos. Como o próprio prelado esclarecia, esta preocupação é parte integrante da fé cristã. Na verdade, o amor, sinal identificador do cristianismo, tem uma dimensão social e política (no sentido genuíno deste termo). Por isso, acho oportuno referir esta dimensão da fé nesta coluna do Almonda dedicada à vida interior, pois alguém poderia pensar erradamente que a dimensão espiritual nos alheia do compromisso social. Ora é o contrário: a fé, na sua identidade, compromete-nos com a construção de uma sociedade justa e fraterna, assente na igual dignidade e fraternidade de todos os homens. Compromisso social dos cristãos A fé age pelo amor, lembra São Paulo. A autenticidade da fé avalia-se pela prática das obras de misericórdia. É por elas que seremos julgados no final da nossa vida, adverte São Mateus. Que adianta dizer que temos fé se não praticamos as obras, pergunta São Tiago? E as obras da fé têm a ver com o serviço a Deus e aos homens, à família, à igreja e à sociedade. A ajuda fraterna não se limita à partilha de bens mas concretiza-se, igualmente, na atenção e acolhimento aos outros, no afeto e no cuidado que dedicamos a quem precisa. Deste modo, o amor verdadeiro leva-nos a lutar contra a pobreza material e a privilegiar os cuidados aos mais vulneráveis. Por isso, amar o próximo como a si mesmo, tem um horizonte muito amplo e torna-se um programa de vida que passa pela entrega de si mesmo, pelo serviço humilde, pela partilha do que temos e somos: do tempo, do afeto, da cultura, dos bens; pede- -nos para perdoar e semear a reconciliação; construir pontes entre as pessoas e alicerçar a paz; criar harmonia e consenso entre todos sem distinção. São estes valores que identificam o Reino de Deus e constituem o tema principal da pregação de Jesus. O Reino de Deus está presente no mundo e cresce como fermento que transforma no sentido da justiça, paz, fraternidade e alegria. Ser discípulo de Jesus é procurar, acima de tudo, o Reino de Deus e sentir-se responsável pela sua construção no mundo em que vivemos. “Que fizeste do teu irmão”? é a questão que Deus coloca a Caím e a todos nós. O amor fraterno tem, portanto, uma dimensão política. Concluindo, a espiritualidade cristã não afasta do compromisso com as realidades temporais, ao abrir o coração ao amor de Deus abre-o também ao amor dos irmãos tornando-nos capazes de construir a história segundo o desígnio de Deus.

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