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De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

«Quando for grande, quero ser “médica veternária”», disse eu à avó Maria, enquanto entrávamos em casa, ladeadas pelo corredor de hera. «Não é veternária, é veterinária», respondeu docemente. Este foi o dia em que aprendi corretamente a palavra do que constituía o meu sonho. Teria 4 anos, e é a memória mais antiga do que repeti nos 20 anos seguintes: “Quero ser veterinária”. Quando recebia amigas em casa, já se sabia qual era a brincadeira: montávamos uma mesa debaixo da oliveira, munidas de esferográfica e de um bloco de papel. Pegávamos nos meus cães, a amiga era a cliente, eu era a veterinária, trocávamos. A receita era sempre a mesma: um complexo multivitamínico que havia em casa. Ou isso, ou brincávamos com as galinhas. Não precisávamos de mais. O Pluto foi um dos protagonistas dessas brincadeiras, e
é o que ainda hoje me acompanha. É rafeiro, adotado em cachorro no então Canil do Entroncamento. Tem 15 anos e é o cão mais obstinado, perspicaz, inteligente, ativo e brincalhão, com seu quê de resmungão, que conheço. É baixinho, roliço, e tem um pelo dourado e ondulado. Faz-vos lembrar alguém? Costumo dizer que eu e ele constituímos o paradigma “tal dono, tal cão”, modéstia à parte. Certo dia, ao iniciar mais um ano letivo do curso, conversava com os meus pais sobre as saudades que sentia dos meus animais. Eu, que dormia com os meus gatos e que não passava um dia sem passear os cães, vi-me numa cidade desconhecida a lidar com animais aos quais não podia dar-me ao luxo de afeiçoar. O meu pai teve a solução: “por que não levas o Pluto?”. Assim, o Pluto continuou a ser protagonista, num filme diferente. Voltou às “brincadeiras de veterinários”, desta vez nas
minhas aulas. Esperou-me à porta das salas de aula, acompanhou-me nos corredores do hospital veterinário escolar. Em momentos de escuridão, o Pluto obrigou-me a sair, e a procurar a luz. Assinala-se, a 4 de outubro, o Dia Mundial do Animal e do Médico Veterinário. Que este Dia, a par de todos os outros, sirva para olharmos nos olhos dos nossos animais e reconhecermos neles as emoções que expressam. Numa altura em que o abandono de animais continua a crescer, tendo-se registado no ano passado um total de 33.433 cães e gatos recolhidos por centros oficiais, mais 3.241 do que em 2015, recordemos e pensemos nas palavras de Anatole France, escritor francês nascido no séc. XIX: “antes de ter amado um animal, parte da nossa alma permanece desacordada.” Vamos permitir-nos acordar?

Telma Gomes
* Médica veterinária telmaveterinaria@gmail.com

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