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Coisas e cenas & cenas e coisas

“No castelo ponho o cotovelo, em Alfama descanso o olhar e assim desfaço o novelo de azul e mar…”, assim começa um dos fados com letra de José Carlos Ary dos Santos, que eu mais gosto de cantar, “Lisboa Menina e Moça”, e eis assim em palavras, a minha Lisboa.   Mas, já todos sabem que se eu já não passo sem a minha Lisboa, eu não vivo é sem o meu Ribatejo! Terra de cavalos, cavaleiros e de toiros. De forcados e campinos e das mulheres e dos homens que trabalham nos campos da Lezíria e ainda do Bairro de sol a sol, de geração em geração com a arte, o engenho e o amor que só quem nasceu nesta terra sabe ter.  “Verde verde verde campo, verde verde o teu olhar, são mais verdes os desejos que tenho para te dar.” Tão diferentes e tão meus. Há dias acordei ao som de um amola-tesouras! Há quanto tempo não ouvia um.  Dizem os antigos que quando se ouve o amola-tesouras, chove. O certo é que o dia nasceu fosco e marralheiro e a meio da manhã choveu a bom chover. Afinal a tradição ainda é o que era, pensei! Mas sabem o mais curioso disto? É que nesse dia acordei na minha Lisboa. Ao que parece, o velho ditado tanto vale para o campo, como para a cidade. E aquela melodia… uma melodia tão simples ecoou-me na cabeça por dias! Que saudades eu já tinha desta melodia e nem tinha dado conta. Por vezes acontece-nos isso. Temos saudades e nem sabemos.  Não é que me fizesse falta ouvir aquela melodia, mas sem dar por isso, voltei atrás no tempo e até senti uma certa nostalgia… De repente senti-me de nariz colado ao vidro da porta da marquise, em casa da minha mãe, de olhos postos no quintal a ver chover. Com as primeiras chuvas vinha aquele cheiro a terra molhada e vinham também os passarinhos que dentro das pequenas poças que se formavam, tomavam grandes banhocas e por vezes até vinha o arco-íris! E então a cabeça voava para longe. Umas vezes em busca do pote cheiinho de moedas de ouro que está sempre onde termina o arco-íris, outras vezes fazendo dele um enorme escorrega onde a diversão era garantida! A chatice era quando vinham os trovões e os relâmpagos e a chuvinha se transformava numa valente carga de água.  Lá se ia a luz… mas também não havia problema, porque havia sempre na cozinha e na sala uma palmatória com uma vela e uma caixa de fósforos ao pé, para estas emergências. E de repente lá se ouvia a minha mãe: – Oh Teresinha vai ao sótão ver se está a cair alguma beira. Estão lá iam os alguidarinhos para o sítio do costume, caso fosse preciso. E quase nunca era preciso mas havia que acautelar. Outros tempos.  O sótão continua a ser de telha vã! E sempre que chove, agora, ouve-se: Oh mãezinha vou lá acima ao sótão, ver se está a cair alguma beira. Não te preocupes, os alguidarinhos estão lá caso sejam precisos. São as leis da vida porque tudo isto existe, tudo isto é triste, (será?), tudo isto são COISAS e CENAS & CENAS e COISAS.

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