Justiça

 

O caso é que um vizinho tinha vacas. Até aqui tudo bem, o problema é que não as alimentava como deve de ser. Imagine-se os ruminantes, com a roupa bem chegada aos ossos, a pastarem num campo de terra e, mesmo ao lado, tal oásis num mar de areia, verdes e ondulantes searas de aveia. Ainda há pouco um amigo me confidenciava que tinha colocado umas árvores no seu quintal. Um seu vizinho tinha ovelhas e habitualmente, com o consentimento do meu amigo, elas pastavam no quintal. Mas agora colocadas as árvores está bem à vista que a mistura que não pode dar bom resultado.

 

Mas o meu amigo é um filantropo e ponderou a possibilidade de vedar as árvores. Antes de o fazer aconselhou-se com um velhote (o diabo sabe muito, mas não é por ser diabo, é por ser velho!). Resposta: não sejas parvo vais ficar sem as árvores! Não te esqueças do seguinte: tu vais pensar durante algum tempo como é que vais vedar as árvores, as ovelhas vão estar aqui o tempo todo a pensar como é que vão chegar aos rebentos… Bom mas isto são divagações – voltemos às vacas! O dono delas era um homem calmo, com aquela calma do mar chão, mas sem qualquer espécie de remorso ou preocupação pelos outros. E então deixava as vacas ir em liberdade pastar nas searas que não eram suas. Pedidas satisfações desculpava-se, que não tornava a acontecer, que tinham fugido sem dar por isso. Quem o ouvisse não o levava preso, mas não é por o mar ser calmo que deixa de ser menos fundo… Uma, duas, três vezes… Os donos das searas, onde as vacas se refastelavam como a rapaziada no Mac Donald’s, chamaram a guarda. A guarda veio, uma, duas, três vezes. Tiraram-se fotografias. As searas ficaram espezinhadas. Isto foi-se repetindo. Juntaram-se os três vizinhos e levaram o caso a tribunal.

 

A justiça demorou uns bons seis meses até que fossem todos convocados a dizerem de sua justiça. Durante esses meses passou-se o Inverno, entrou a Primavera, chegaram os calores dos Verão… E os quadrúpedes, cada vez mais sabichões, já conheciam todos os atalhos: espezinharam a aveia, o trigo, o meloal….Finalmente encontraram-se para a audiência com o Meritíssimo. O juiz, como manda a justiça, primeiro ouviu o réu. Depois chamou os queixosos. Ouviu e fez perguntas. Tinha um ar arrogante como se fosse dono e senhor de Leis que não estão ao alcance dos simples mortais. Os advogados digladiaram argumentos e contra argumentos. E o juiz com a sua toga negra, ouvia este caso comezinho, ambicionando certamente por grandes audiências, entrevistas televisivas, casos polémicos capazes de encher páginas de jornais e ocupar todo o horário nobre da televisão. Mas o que tinha à sua frente era apenas uma contenda de vizinhos que já se repete desde o tempo de Caim e Abel, o pastor contra o agricultor. Os donos das searas pediam uma indemnização por danos. O Meritíssimo questionou-os como tinham calculado o valor que pediam, uma vez que não apresentavam provas concretas e que assim vinham apenas, não munidos da sua boa fé, mas com desculpas de mau pagador. Na audiência seguinte apresentaram números concretos com o cálculo da produção por medida de área, os mapas com as áreas afectadas, o testemunho de técnicos agrícolas e de outros vizinhos, fotografias. Vieram três guardas atestar que efectivamente tinham visto as vacas a pastar nas searas. Na última audiência, depois de todos se terem levantado à sua entrada em respeito pela justiça, balbuciou o acórdão numa voz tão monocórdica que não se percebeu nada. Da leitura posterior ficou-se a saber-se que o réu tinha sido considerado culpado mas que os queixosos não tinham apresentado provas suficientes que atestar cabalmente o montante pedido. O réu foi condenado a pagar uma indemnização por danos morais, de valor muitíssimo inferior aos prejuízos causados. Que se saiba ainda não pagou nada! Os custos dos tribunais, do funcionamento da máquina da justiça, foram suportados por todos…

 

E as vacas? Continuam magras, mas agora foram mudadas de sítio, pastam para os lados das serras e já andam a deitar o olho a um faval …

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