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QUASE CEM ANOS

Neste novo “O Almonda” sou, então, provedor do leitor. Pretende-se que lance um olhar crítico sobre o conteúdo do jornal. Honrosamente, com independência, sou representante do leitor. Então, leitor, vamos a isso.
A caminho de celebrar o centenário, este jornal que, antes de mais, se quer regional, surge de formato diferente, nova orientação redactorial, novos colaboradores. Esta mudança está simbolizada na primeira página com a representação de um homem velho e de um novo. É certo que tudo muda. Nasce o novo, morre o velho. Porém, o passado não deve cair no esquecimento mas, trazido para o presente, orientar o futuro, com tudo o que teve de positivo e de negativo. O velho tem uma história. E o novo, com o seu juvenil entusiasmo, não sabe tudo e deverá nortear o seu caminho pela sensatez, adaptado ao tempo e ao lugar. A mudança é salutar. Mas neste momento não posso deixar de pensar naqueles que ao longo de quase um século lançaram ao vento este sonho de papel. Quantos homens e quantas mulheres aqui deixaram as suas ideias, a sua visão do mundo. Este jornal foi voz da nossa região e ao longo da sua existência atravessou vales, subiu montanhas, caminhou com teimosia, resistiu e fez cedências. Que o novo que aí vem saiba manter a chama, continuar o caminho que nos trouxe até aqui. Também na primeira página deste jornal sobressai como lema orientador: Dizendo a verdade, combatendo o erro. Parece-me interessante que “O Almonda” – neste tempo de relativismo e de vazio – nos confronte com causas e se bata por valores. É salutar tentar resistir ao naufrágio. Mas, neste caso, não deverá perder a perspectiva de que aqui, onde estamos, não se encontra a verdade absoluta e às vezes no decurso da história a verdade de ontem é o erro de hoje. Assim o nosso caminho deve ser um escutar da realidade que é plural, admitir a diversidade de vozes, com o sentimento de que ninguém é dono da verdade, de que o erro não está sempre do lado do outro. Este jornal já tem tempo de ter a sabedoria dos velhos. Essa sabedoria que nos diz que a verdade se alimenta da dúvida. Que não esmoreça o entusiasmo que nos fez viver quase cem anos.

Eduardo Bento

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