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Um pequeno aditamento ao livro “Torrejanos de Vulto” (2)

Foi a partir desta altura (1911), por incumbência do provincial Padre Luís Gonzaga Cabral, que Francisco Rodrigues começou a percorrer as principais bibliotecas da Europa, recolhendo materiais para a elaboração da sua monumental obra “História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal”. Durante quarenta e quatro anos – desde os seus tinta e oito anos até à sua morte, ocorrida aos oitenta e dois – os trabalhos de investigação do torrejano ilustre foram ocupados, principalmente, na feitura da colossal obra-prima da história. 

O projecto inicial de Francisco Rodrigues era bastante arrojado: pretendia estender o seu estudo às diversas Províncias e Vice- Províncias de Portugal (RODRIGUES, Francisco, “História da Companhia…”,Tomo Primeiro, Volume I, pág. VIII). Os árduos trabalhos de investigação, que a grandiosa obra consumia, levou-o a abandonar o seu primeiro intento. Consciente da insuficiência de uma vida humana para enfrentar, em toda a sua dimensão, o hercúleo projecto. Mesmo a parte dos trabalhos respeitante à Província de Portugal ficaram incompletos. Não conseguindo Francisco Rodrigues ultimar o seu oitavo grosso volume.

Em 1938, o governo português, em reconhecimento dos serviços relevantes prestados à cultura, atribuiu-lhe a Ordem Militar de Santiago de Espada. No ano seguinte, o trabalho do torrejano ilustre, na área da investigação histórica, seria novamente reconhecido, através da atribuição do “Prémio Alexandre Herculano”, pela publicação dos dois volumes, do tomo II, da “História da Companhia de Jesus…”. A própria Academia Portuguesa de História, na qual fora o sócio fundador nº 15 (23-12-1937) elevá-lo-ia, em 1951, por unanimidade, à rara categoria de “académico emérito” (Boletim da Academia Portuguesa de História, 15º ano, Lisboa, 1952, págs. 131 e 132). Francisco Rodrigues também fez parte como sócio da Associação dos Arqueólogos Portugueses, desde o mês de Janeiro de 1929.

A par dos seus trabalhos de investigação, o torrejano ilustre desempenharia importantes missões, no país e no estrangeiro, ao serviço da Companhia de Jesus. Nos anos de 1920 e 1927, seria eleito representante da Província Portuguesa à Congregação dos Procuradores, celebradas na cidade de Roma, em Itália. Esteve também presente na 27ª Congregação Geral, em Roma, no ano de 1923, desempenhando a função de representante da Companhia. O mesmo aconteceria em 1946, na 29ª Congregação Geral, onde fora eleito o penúltimo Geral da Companhia, Padre João Batista Jansens.

Em 1924, seria chamado à capital de italiana para colaborar, como secretário da secção histórica, na organização da Exposição Missionária Vaticana de 1925. O único português presente nas diversas comissões da Exposição. A qualidade do trabalho desenvolvido por Francisco Rodrigues valeu-lhe a atribuição, pelo Sumo Pontífice Pio XI, da medalha e do diploma «bene merenti».

Este período, em Itália, foi marcado por um episódio que causaria enorme felicidade ao torrejano ilustre – no ano de 1924, Francisco Rodrigues seria designado, como representante da Companhia, para receber do Governo italiano a devolução dos cerca de dois mil códices do antigo arquivo dos Jesuítas. Confiscado pelo Governo em 1870 (CRUZ, Guilherme Braga; “op. cit., pág.25).

A obra de Francisco Rodrigues ocupa um lugar marcante na nossa História, principalmente no âmbito dos estudos sobre o papel da Companhia de Jesus em Portugal e nas suas antigas colónias. Destaca-se, nos seus trabalhos, com já referimos, a monumental obra “História da Companhia de Jesus na Assistência de  Portugal”. São também de realçar os escritos do torrejano ilustre no início da sua actividade de Historiador: “ Os Jesuítas e a Monita Secreta” (1912); “Jesuitofobia” (1917) e “A Formação intelectual dos Jesuítas” (1917). Este último, um projecto embrionário do seu trabalho de grande folgo – “A História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal”.

Com o livro “Jesuitofobia”, Francisco Rodrigues pretendeu derruir claramente as exaltadas e duras invectivas feitas pelo republicano José Caldas expostas nas obras, “Os Jesuítas e a sua influência na actual sociedade: meio de a conjurar” (1901) e “A Corja Negra”( 1914). Quanto ao livro “Os Jesuítas e a Monita Secreta”, o torrejano ilustre conseguiria rebater, com novas achegas, sobre as pretensas instruções secretas, atribuídas aos dirigentes jesuítas para o domínio temporal e espiritual do mundo.

Poderíamos referir, neste curto espaço, outros trabalhos de investigação dignos de registo de Francisco Rodrigues, espalhados por revistas nacionais e estrangeiras. Mas ficamos apenas pela referência a uma comunicação feita pelo torrejano ilustre, a 10 de Julho de 1940, no Congresso do Mundo Português. Em que demonstrou definitivamente que o autor da famosa e actualíssima obra, “Arte de Furtar” (1744) não foi o Padre António Vieira, mas sim um outro jesuíta, de nome Manuel da Costa (assunto abordado num anterior artigo).

Já com uma provecta idade, abalada pelos trabalhos e canseiras da investigação, Francisco Rodrigues recolheu à casa do noviciado de Soutelo, distrito de Braga. No dia 8 de Março de 1956 partiria, tranquilamente, para os braços do Senhor. Para trás ficava uma vida plena, marcada pela modéstia e simplicidade, da qual nos legou “uma obra de valor imorredouro”, fruto da sua incansável actividade de investigador e historiador. “ Mas, para além de tudo isso – e talvez acima disso, aos olhos de Deus – [Francisco Rodrigues] difundiu amor, simplicidade e simpatia em torno de si” (CRUZ, Guilherme Braga; “op. cit.”, pág.27).

 

Vitor Antunes

Texto escrito com a antiga ortografia

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