CALÇAS ROTAS

Neste nosso mundo de desvairadas gentes e modas, há coisas verdadeiramente espantosas. Reconheço que a mania de tudo querer perceber dá, muitas vezes com a minha cabeça nas paredes. É que há coisas que não têm explicação ou, se a têm, eu não a descubro.

Das últimas modas que por aí andam, a das calças rotas deixa-me confuso, espantado, cogitando qual a explicação que lhe posso dar. Eu sei que nem tudo tem explicação mas enfim o absurdo também existe. Daqui a cem anos qual será a finalidade que os nossos arqueólogos da moda darão a este fenómeno juvenil? Digo juvenil para não dizer social, sobretudo no feminino. Talvez encontrem esta explicação:

O século XXI foi o século das causas sociais, dos migrantes, dos desprezados da sorte, dos sem-abrigo, contra todas as desigualdades. Por isso os mais ricos ou abonados para se solidarizarem com os rotos e esfarrapados, usassem as calças rotas porque assim chamariam mais a atenção para esse grupo social. Outra explicação seria a consciencialização dos recursos limitados da terra. Ao usarem a roupa rasgada e rota evitariam o fabrico de nova para poupar recursos. Expliquem-me lá os súbditos da moda a razão do uso de tais rasgões. Eu sei que sou velho e não tenho o direito de estragar prazeres, mas francamente que fiquei embasbacado quando noutro dia uma senhora já não jovem me interpelou porque eu, quase instantaneamente, ao passar junto duma jovem com as calças muito rotas,ia para lhe perguntar se não queria umas calças sem rasgões que eu lhas oferecia. Felizmente que me contive. Mas ao fazer essa observação à tal senhora já entradota, ela me respondeu: “Ora, ora, não vê como lhe ficavam bem essas calças?  É uma moda bonita”. Ouvi e engoli em seco porque fiquei mudo.

E já que vem a talhe de foice, fiquei siderado ao ver a festa dos finalistas da Universidade de Lisboa. Depois da bênção das fitas , sem sentido para muitos que acenavam com as pastas, houve espetáculo. E que espetáculo? Garrafões de plástico que os estudantes levavam já com as misturas alcoólicas que eles sabem fazer e sendo obrigatórias as bebedeiras pois sem elas não há festa. Como os serviços de saúde já sabiam o que a casa gasta ali estavam para prevenir. E não tinham mãos a medir com os comas alcoólicos e com o transporte para os hospitais. Não me digam que não podemos divertir-nos sem nos prejudicarmos a nós e aos outros! Falta-nos aquela regra clássica: “Tudo com peso, conta e medida”. Já estou a ouvir algum leitor a dizer: “Bem se vê que és velho!” Claro que sou velho mas não burro. Meus caros jovens então nas vossas cabeças não surgem ideias mais sadias e de maior prazer que essas vossas festas alcoólicas? Antigamente, nas tabernas das aldeias deste país, os homens , esgotados e explorados por um dia inteiro de trabalho duro, iam para as tabernas. Era a única consolação que tinham. Nesses momentos esqueciam no álcool a escravatura a que eram obrigados. E vós?

Borges Simão

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