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Um pequeno aditamento ao livro “Torrejanos de Vulto” (1)

Qualquer torrejano menos desatento à História local deparou-se forçosamente, nas suas pesquisas, com um dos preciosos estudos de Joaquim Rodrigues Bicho (1926-2015), dedicados à memória de Torres Novas. Livros escritos com enorme rigor, onde irmana o devotado carinho do torrejano ilustre pelas gentes, cultura, património e tradições da sua terra natal.

É nas páginas de uma obra da sua autoria “ Torrejanos de Vulto” que, de vez em quando, respigamos ensinamentos e indicações sobre algumas destacadas figuras, nascidas no século anterior em Torres Novas. E que marcaram indelevelmente o panorama concelhio e nacional.

A presente obra de Joaquim Rodrigues Bicho destaca-se pela sua feição biográfica. Considerada como sequência do clássico livro de Artur Gonçalves (1868-1938), “Torrejanos Ilustres” (1933).

Mas, tal como acontece no trabalho do historiador Artur Gonçalves, o livro “Torrejanos de Vulto”, não deixa de ter algumas imprecisões. Os dois importantes autores torrejanos, na parte introdutória das suas obras, nunca esconderam os eventuais obstáculos ligados à investigação e escolha do escol das insignes figuras da nossa terra.

Esta partilhada honestidade permite-nos a ousadia de fazer um pequeno reparo ao livro “ Torrejanos de Vulto” de Joaquim Rodrigues Bicho: a sua selectiva galeria dos grandes vultos torrejanos peca pela omissão de um eminente historiador e pensador do século XX. Autor de uma vasta obra que teve a virtude de ir mais além do limitado espaço cultural português, obtendo os seus trabalhos históricos reconhecimento internacional. Falamos do torrejano Padre Francisco Rodrigues (1873-1956).

De origens bastante humildes, Francisco Rodrigues nasceu no lugar da Mata a 20 de Setembro de 1873. Toda a sua vida iria ser marcada pelo cunho da modéstia e da virtude. Vida dedicada ao serviço de Deus através do” [desvendamento] dos segredos da História”. (CRUZ, Guilherme Braga; “ Elogios do P. Francisco Rodrigues e do P. Carlos da Silva Tarouca; Editora Gráfica Portuguesa, Lisboa, 1965, pág. 13).

A sua vocação religiosa despontaria bastante cedo. A 20 de Setembro de 1888, Francisco Rodrigues entrava para o noviciado do Barro (magistério jesuíta), no concelho de Torres Vedras, seguindo os passos do seu irmão mais velho, João Rodrigues (op. cit., pág. 19). Dois anos depois – após os seus votos – foi estudar Humanidades e Retórica no Colégio de S. Francisco em Setúbal. Vemo-lo de novo no noviciado do Barro, para frequentar o ano lectivo de 1892-93. Transita depois para o Colégio de São Fiel, distrito de Castelo Branco, a fim de cursar Filosofia e Ciências, durante três anos (de 1893 a 1896).

Em 1896, foi nomeado professor de língua e literatura portuguesa, latina e grega. Na Casa da Provação do Barro, exerce o professorado, durante seis anos, ensinando Humanidades, Retórica e Literatura portuguesa aos estudantes da sua Ordem. A partir de 1898, dirigiu, no mesmo Colégio, uma academia de Matemática (op. cit, pág. 19).

No segundo semestre do ano de 1902, Francisco Rodrigues partia para Roma, a fim de frequentar Teologia na Universidade Gregoriana. No período em que estudou na cidade italiana, ainda teve tempo para dirigir uma academia de Português para alunos brasileiros. Foi nesta altura que encetou uma profunda e duradoura amizade com o grande historiador Padre Pietro Tacchi Venturi, autor da famosa “Storia della Compagnia Gesú in Italia” (op. cit. pág. 20). A longa convivência com o eminente jesuíta italiano teve um efeito bastante importante na vida do torrejano ilustre, despertando-o para a investigação histórica onde, mais tarde, viria a marcar uma posição de enorme relevo (op. cit. pág. 20).

A 10 de Agosto de 1905, Francisco Rodrigues recebeu, em Roma, a ordenação sacerdotal e, no ano seguinte, concluiu os seus estudos com elevada distinção.

Após o termo dos seus estudos teológicos, regressa a Portugal, onde mais uma vez vai para a Casa do Barro, para aí fazer a sua terceira provação, durante o ano lectivo de 1906/07 (op. cit., pág. 20). Na instituição exerce as funções de Padre-Ministro dos juniores e também as de director da Congregação de São Luís e São José. Em 1907 retoma as lides do ensino, ocupando o seu antigo posto.

A revolução republicana de Outubro de 1910 poria fim a esta etapa da sua vida. Levado para a prisão na Cadeia do Limoeiro, a 7 desse mês – um dia depois da maior parte dos irmãos da sua ordem terem sido aprisionados em Caxias – foi posteriormente, com os outros membros da Companhia, expulso do país, por ordem do decreto de 8 de Outubro de 1910. No qual o novo governo repunha a famigerada lei pombalina de 3 de Setembro de 1759, que declarava “a proscrição, desnaturalização e expulsão dos regulares da Companhia de Jesus, nestes reinos e seus domínios”.

O torrejano ilustre foi um dos últimos padres a abandonar o noviciado do Barro. Pois teria a honrosa missão de consumir o Santíssimo Sacramento. Evitando, desta forma, a sua profanação pelos iconoclastas republicanos (AZEVEDO, L. Gonzaga; “Proscritos”, Primeira parte, Florencio de Lara, Editor, Valladolid, 1911, pág. 128).

A 22 de Outubro de 1910, a bordo do Vondel, Francisco Rodrigues partia com mais quatro sacerdotes da Companhia, para a Holanda. Entre eles encontrava-se, também, o ilustre e ignorado torrejano, padre António Antunes Vieira (AZEVEDO, L. Gonzaga; “Proscritos”, Segunda parte, Tipografia, E. DAEM, Bruxellas, 1914, pág. 217).

(Continua)

Vitor Antunes

Texto escrito com a antiga ortografia.

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