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O FOGO que nos vai queimar

Como o sobreiro, que perde a casca, só mudamos para melhor quando passamos por uma queimada: as provações da vida. Mas há quem viva como os eucaliptos, migrando de solo em solo, sem se adaptar às mudanças e seus gestos, queimam tudo ao redor, sem se salvar.

A transformação de uma floresta de sobreiros em eucaliptos é um crime idiota, que somente a ganância humana pode conceber. O sobreiro é rijo por fora e macio por dentro, sua essência é símbolo do povo português, duro por fora, mole por dentro, ou seja, “duro de coração mole”. Numa floresta em chamas, a casca do sobreiro, protege do fogo toda a fauna até que a chuva venha.

O eucalipto veio da Austrália, por questões económicas, a ingerência humana espalhou suas sementes pelo mundo. Suas diversas espécies adaptam-se com facilidade aos diferentes solos. O seu cultivo traz inúmeras riquezas à indústrias e comércios. Porém, as suas florestas, comprovadamente, fora do seu habitat natural, provocam secas, perda do solo e queimadas nefastas.

O sobreiro não queima facilmente e quando o fogo lhe é inevitável, sua existência sobrevive às chamas, e repentinamente, volta a renascer. Mas o fogo exige do sobreiro transformação. Ele nunca é o mesmo ao passar pelo fogo. Já o eucalipto, quando passa pelo fogo, morre e leva consigo tudo ao seu redor… até o solo. O sobreiro não atrai fogo, mas está adaptado para dele se proteger e por ele passar… O Eucalipto atrai calor e é combustível para o fogo. Por ele o fogo não passa… destrói.

O fogo pode ser comparado à vida. O fogo da vida lança-nos em situações que nunca imaginamos. Pode ser fogo de fora: perder um emprego, um amor, um filho, a saúde. Também pode ser fogo de dentro: medo, pânico, ansiedade, depressão – prisões psicológicas e espirituais.

Há sempre águas para apagar os fogos. Mas não existe vida sem queimadas. Onde há vida, haverá fogaréu. É preciso estarmos preparados para o fogo. Fogo é sofrimento. E a vida é uma grande floresta de combustão. O problema é que assim como nossas florestas, existem pessoas de sobreiro e pessoas de eucalipto.

Os homens e mulheres de sobreiro, dentro de sua casca dura, quando submetidos ao fogo, entregam sua casca e consomem-se, – não sem sofrimento -, até transformarem-se em algo completamente diferente, algo que eles mesmos, sobreiros, nunca imaginaram. Os sobreiros quando queimados deixam sementes no solo. E nunca morrem. Seus espíritos vivem nas suas sementes. Passa o fogo, vem a chuva, e as sementes florescem e crescem.

Mas existem pessoas de eucalipto, que, por mais que o fogo aqueça, recusam-se a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o seu jeito de ser. Ignoram o dito: “A árvore frondosa morre para dar nova vida”. A sua presunção e o seu medo são o combustível que dá mais força ao fogo. O destino delas é triste. São queimadas até a morte. No seu medo de perder, matam tudo ao seu redor. Na primavera absorvem toda a água dos vizinhos. No inverno, fecham-se em si, e crescem para o céu, num gesto altivo e arrogante se esquecem do chão. Sobem cada vez mais alto, mais alto, mais alto… até que vem o verão e o fogo (eterno).

Durval Baranowske, diretor

Olho: “Existem pessoas de sobreiro e pessoas de eucalipto”.

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