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Carlos Reis – Em defesa do Mestre Silva Porto (1)

Abrimos o presente artigo com a chamada de atenção para o retrato do pintor torrejano Carlos Reis (1863-1940), executado pelo artista Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), em 1897. Nesta altura, estava-se longe de prever que os dois mais importantes pintores – ao quais se junta o incontornável mestre José Malhoa (1855-1933) -, do final do século XIX e primeiro quartel do século XX, acabariam por se incompatibilizar na vida profissional, debilitando a estreita e antiga amizade que os unia. Firmada desde os tempos do célebre círculo de artistas portugueses, denominado o “Grupo de Leão”.

As vicissitudes, inerentes à sua profissão, colocá-los-ia por diversas vezes em campos opostos. Em nosso entender, há dois momentos cruciais da vida de Carlos Reis e de Columbano Bordalo Pinheiro que concorreram para o enfraquecimento da velha amizade. O primeiro acontece aquando a nomeação de Columbano para o lugar de Director do Museu Nacional de Arte Contemporânea, em 1914. Num processo ínvio e desonesto que não honrou a tão propalada ética republicana, defendida pelos seus principais chefes políticos. A história conta-se em breves palavras: a 28 de Maio de 1911, era promulgado pelo Governo Provisório o Decreto nº 1, que instituía a repartição do anterior Museu Nacional de Belas Artes (do qual Carlos Reis fora Director) em dois – o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu Nacional de Arte Contemporânea. Para o cargo de Director deste último foi nomeado o nosso conterrâneo Carlos Reis (Diário do Governo, nº 140, de 17 de Junho de 1911). A tarefa que teve em mãos não era nada fácil. As salas do novo museu, situadas no Convento de S. Vicente, tinham que ser sujeitas a enormes remodelações para poderem receber condignamente o precioso espólio artístico. A este problema, juntava-se a falta de dinheiro e de condições para levar adiante o projecto. O ilustre torrejano teve também contra si a má vontade de alguns políticos que insurgiram-se contra a criação do importante espaço cultural. A situação descambou no rocambolesco episódio de Carlos Reis “[ser] desafiado para um duelo por um respeitável senador que atacara no Senado a criação do Museu de Arte Contemporânea” (“Carlos Reis”, Colecção Patrícia, 1931).

Ao fim de três esforçados anos o Museu tornava-se realidade. Pela imprensa escrita corriam comentários elogiosos ao excelente trabalho desenvolvido por Carlos Reis. Enaltecendo também a sua criteriosa escolha das obras artísticas expostas pelas quatro salas do Museu.

Só que, no mesmo dia em que decorria a inauguração do Museu, Afonso Costa propunha, na sessão nocturna da Câmara dos Deputados, a extinção do cargo de director do Museu Nacional de Arte Contemporânea (Diário da Câmara dos Deputados, 134ª Sessão Ordinária, em 28 de Junho de 1914, pág. 38). Dotação incluída no pacote de medidas para as poupanças orçamentais do Estado.

Apanhados de surpresa pela inusitada proposta feita pelo ministro das Finanças, ao cair da sessão parlamentar, apenas o deputado Henrique de Vasconcelos reagiu, opinando que não deveria ser aprovada a extinção do cargo de director do Museu Nacional de Arte Contemporânea (op. cit., pág. 38).

No dia seguinte, o Senado ainda voltaria atrás na decisão de acabar com o cargo de Director do Museu de Arte Contemporânea (Diário do Senado, Sessão nº 130, em 29 de Junho de 1914, pág. 61). Mas, estranhamente, a imposição financeira suprimiria o lugar de Director, para passado pouco tempo voltar a ser restabelecido. Columbano Bordalo Pinheiro seria o eleito para o exercício da função.

Como se pode depreender, o processo que levou à exoneração do nosso ilustre conterrâneo e à eleição do novo Director, foi executado com enorme desonestidade. Dadas as excelentes provas do ilustre torrejano, ao longo dos três anos em que esteve à frente do cargo Director do Museu, nada fazia prever que fosse prematuramente excluído. Carlos Reis desempenhara as suas funções com enorme brilho.

O problema para os republicanos estava no facto de saberem que o ilustre torrejano fora alguém muito próximo do defunto monarca D. Carlos. Por outro lado, as tentativas de o integrarem na família republicana esbarravam sempre com a intransigência de Carlos Reis. A verticalidade moral do ilustre torrejano condenava-o a ser um funcionário a prazo na importante instituição pública.

A tramóia arquitectada pelos republicanos teve como objectivo colocar no cargo alguém que fosse tolerado pelo círculo de sua influência. A 14 de Agosto de 1914, o Conselho de Arte e Arqueologia, propunha para director do Museu o artista Columbano Bordalo Pinheiro. Medida oficializada a 17 de Dezembro, através de Decreto ministerial.

A aceitação do cargo por parte de Columbano representou para Carlos Reis uma autêntica ferida à velha amizade. Columbano prestava-se a ser um joguete dos mandatários republicanos e inimigos do ilustre torrejano.

Pouco tempo depois de assumir o cargo, Columbano infligiria uma nova “traição”. Agora tendo como pano de fundo as pinturas do mestre de Carlos Reis – o pintor Silva Porto (1850-1893). O episódio encontra-se descrito numa carta inédita, endereçada por Carlos Reis a Guedes de Oliveira, a propósito da Exposição das obras de Silva Porto por parte do Estado português (Carta de 15 de Junho de 1921).

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