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Às vezes não gosto de ter razão…

Os anos vão se passando, os problemas vão sendo repetidamente apresentados, mas, salvo as pequenas, excepções, tudo continua na mesma e os Bombeiros, esses que dão sempre o corpo ao manifesto e muitas vezes a própria vida, por vezes até são mal tratados no meio disto tudo.

Porque tudo se vai repetindo ao longo dos anos, desta vez, atrevo-me a transcrever um artigo publicado em Setembro de 2010, que, infelizmente, continua actual. Perdoem-me qualquer coisinha. Tenham paciência, Mas às vezes não gosto de ter razão, mesmo ao fim destes anos todos e pior do que isso, depois das tragédias que já aconteceram neste ano de 2017 e ainda Agosto nem sequer vai a meio….

Os Bombeiros têm passado, têm presente e vão ter futuro!

Neste momento em que se acentua algum desencorajamento por parte dos Bombeiros, seus Comandos e seus Dirigentes, desencorajamento que tem vindo a crescer por variadíssimas razões, nomeadamente pela falta de apoio de quem os devia apoiar, é imprescindível, diria até salutar que nos lembremos todos, do que foram e do que são, para que a memória não esqueça e o ego de cada um se possa levantar, e do que podem ser os Bombeiros em Portugal.

O seu passado fala por si. Basta reler-se a história, por esse país de alto a baixo, desde a segunda metade do Século XIX, e os exemplos são tantos que não dá para os enumerar e descrever. Mas nós sabemos. E há muito para contar a quem não souber e quiser aprender alguma coisa com o grande exército da paz.

O presente é o que nós conhecemos. Todos os dias, em qualquer ponto do país, por mais profundo que ele seja, lá estão os Bombeiros a ajudar o próximo, a qualquer hora do dia ou da noite, faça sol ou faça frio, chova ou troveje, lá estão os Bombeiros a fazer tudo o que podem e tudo o que sabem em favor do próximo e em prol da economia nacional, muitas vezes com equipamentos velhos, cansados e rudimentares, por vezes sem uma palavra de agradecimento e, claro, sem serem recebidas as contrapartidas devidas pelo trabalho e pelos gastos efectivos com a generalidade dessas operações. O que os Bombeiros hoje fazem, é pagar para trabalhar!

O futuro, apesar de todos os atropelos de que têm sido vítimas, apesar de todas as dificuldades da vida, não deixa de ser promissor a partir do momento em que quem manda, se digne passar a ter a humildade suficiente que tem faltado, para considerar esses mesmos Bombeiros como parceiros indiscutíveis que são em todo o Sistema de Protecção e Socorro e passar a tratá-los mesmo como parceiros.

Sejamos claros. O sossego das populações nunca passará por forças especiais desconhecedoras do meio e desenraizadas das populações, mas sim pelos Bombeiros, como tem sido até aqui, mas de forma mais expedita a partir do momento em que o Estado assuma, de uma vez por todas, o compromisso de lhes facilitar, mas facilitar mesmo, a formação contínua, de os equipar capazmente para as várias situações de risco com que eles se confrontam todos os dias, e acima de tudo lhes pague os serviços prestados, mediante tabelas a discutir e aprovar entre as partes, como um dia, em Maio de 2003, prometeu o primeiro Presidente, Eng.º Leal Martins, do então recém-criado SNBPC.

A Liga terá aqui um papel importante no que toca à sensibilização para a unidade de todos os Bombeiros Portugueses, que têm mesmo que deixar as “quintinhas” para beneficiar de um estatuto de corpo inteiro. Os Bombeiros têm que falar sempre, mas mesmo sempre, a mesma linguagem, entenderem-se sempre, trabalhar sempre no mesmo sentido, sempre com o mesmo fim, e lá porque uns são não sei de onde, não podem ser alcunhados de piores ou porem-se em bicos dos pés como se fossem melhores do que outros que são doutro sítio qualquer. Têm que se saber respeitar, e respeitar todos os companheiros, todos os dias, dando os braços, em todas as circunstâncias porque no final de contas a missão é a mesma e todos são imprescindíveis. Por isso, têm que olhar menos para os seus umbigos e estar sempre muito atentos às conversas colaterais que, por vezes, só servem para dividir o que deve estar unido e coeso.

A Liga também terá que fazer sentir ao Estado a sua obrigação de garantir a formação contínua, o equipamento, o pagamento do trabalho e a igualdade de oportunidades no sentido de estar sempre garantida a operacionalidade ao momento e o sucesso de todas as operações de socorro. Custará dinheiro? Sim custará. Mas será que o trabalho dos Bombeiros não tem valor? Claro que tem. É só qualificar e quantificar o trabalho prestado pelos Bombeiros, valorizando-o. Se os responsáveis dos Bombeiros souberem, por exemplo, que por cada hora de trabalho numa operação de desencarceramento, num acidente rodoviário, no ataque a um fogo urbano, industrial ou florestal, no socorro a um náufrago, numa inundação ou numa cheia, têm garantido um valor que cubra as despesas com o pessoal, com os consumíveis e com amortização dos equipamentos, não faltarão Bombeiros à chamada.

Com esta tão nova quanto velha filosofia, será que os Voluntários deixarão de existir? Nunca. O seu trabalho, especialmente nos grandes incidentes será sempre imprescindível para a ampliação do dispositivo de socorro. Mas para as primeiras intervenções terão que estar sempre equipas profissionais, vinte e quatro horas por dia, organizadas e estabelecidas de acordo com o grau de risco de cada Área de Actuação Própria. Naturalmente que os BV de uma cidade de média dimensão, onde não existam Sapadores nem Municipais, precisarão de muito mais profissionais, do que uma Corporação do Interior, mesmo que Municipal, onde o grau de risco seja menor. Mas há um mínimo que todos têm que ter. Por exemplo a guarnição profissional e permanente da central telefónica. Isto, para qualquer pessoa minimamente informada, é imprescindível. Uma guarnição completa, devidamente formada, sempre pronta, para uma Ambulância de Socorro, pelo menos. Uma guarnição completa, polivalente, formada e enquadrada, para responder de imediato a qualquer pedido de socorro tanto para um incêndio urbano, industrial ou florestal, para um acidente rodoviário, para as cheias, inundações, desabamentos, porque essa coisa das EIPs que já existem em vários locais, foi um primeiro passo, mas muito tímido, curto e insuficiente para as necessidades do dia a dia.

A chamada época dos fogos florestais está a acabar. O ano de 2010 foi aquilo que foi. Não vamos fazer nenhuma análise sobre a época que passou. Para isso há muitos técnicos habilitados. Mas vamos todos pensar na melhor forma de sensibilizar o poder para a realidade dos Bombeiros, para as expectativas dos mesmos e para a necessidade destas mesmas expectativas não saírem mais uma vez furadas.”

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