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Em louvor do Espírito Santo e dos meiavienses

Por repetidas vezes, encontrámo-nos na Ilha Terceira em plena quadra do Espírito Santo. Este culto constitui uma das características básicas da religiosidade islenha. Congrega a população residente com os terceirenses da diáspora (Estados Unidos, Canadá e Brasil).

Desde tempos remotos que os sinistros vulcânicos e as trombas de água se encontram na origem das súplicas ao Paráclito. Com as orações surgiram as crenças nos milagres e, com estes, a lenda. A história mostra que o povo vivia numa angústia permanente até que saía em procissão com as coroas do Divino, implorando a misericórdia de Deus. A solidariedade entre os crentes é um dos corolários deste processo.

Assim, fundaram-se associações para dar esmolas de pão, carne e vinho em louvor do Espírito Santo. O povo chamava-lhes “irmandades” e sublinhe-se que, na América do Norte, algumas igrejas portuguesas foram edificadas por estes “irmãos”.

Vitorino Nemésio, relatou a religiosidade popular e festiva deste culto no célebre “Mau Tempo no Canal”. Foi há bastantes anos que o lemos e relemos, no entanto não esquecemos como o autor descreve a sua dimensão comunitária.

Com efeito, são os aspectos de integração social que mais nos impressionam. É ténue a linha que separa o sagrado do profano e são numerosas as variantes de ilha para ilha, mesmo de freguesia para freguesia. Contudo, existem denominadores comuns: o “imperador”, a coroa de prata e os cânticos. Constata-se de igual modo, tanto nos Açores como nas comunidades de açor-descendentes, a continuidade da tradição do bodo, da massa sovada e de outros tipos de pães. E quem ouve cantar o “Veni Creator Spiritus” salmeado por um bom coro, dificilmente esquecerá a sua beleza.

Há uns trinta ou quarenta anos, inclusive no meio académico ilhéu, havia quem afirmasse que esta veneração iniciada pela Rainha Santa Isabel estava extinta no Continente. Não esquecemos a reacção de alguns colegas quando lhes contávamos que, em aldeias do concelho de Torres Novas, sempre houve as Festas do Divino.

É sabido que a postura vivencial dos açorianos tem aqui um dos seus pilares. Como já mencionámos, os tipos de celebrações são variados. Desde uma modesta função num povoado da Terceira, na qual não faltam os foguetes estalados no ar diante do ceptro que se beija e da coroa que se impõe, até aos faustosos cortejos de “rainhas” e suas “damas” organizados pelos nossos compatriotas estabelecidos na Califórnia ou no Massachusetts.

Como acontece noutras comunidades, o simbolismo e o poder de agregação destas festas verifica-se igualmente na Meia Via. E apraz-nos sublinhar que os festejos locais não ficam atrás de nenhuns outros. No significado, mas também na participação colectiva.

Foi o que pudemos verificar quando alguém nos convidou para passar o dia de Pentecostes nesta aldeia torrejana. Vimos, ouvimos e participámos. Agora, cumpre-nos tecer um grande louvor aos meiavienses que mantêm viva esta secular tradição através das gerações. É belo ver como a população local jubila, quando se trata de dar culto e festejar o Divino Espírito Santo.

Pensando bem, quando foi criada a freguesia em 2001, não podia ter sido mais apropriada a colocação de uma coroa prateada com a respectiva pombinha branca no brasão de armas e na bandeira. Uma tradução heráldica perfeita.

Devíamos mencionar nomes. Como desconhecemos quase todos, ficar-nos-emos pela juíza (Dra. Cândida Fanha) e respectiva comissão que generosamente deram o seu tempo e saber para que estas celebrações resultassem num verdadeiro sucesso. O coro e a banda foram excepcionais. Também gostámos de ouvir as palavras proferidas pelo Sr. Padre Ricardo Madeira.

Para concluir, registamos um voto de reconhecimento pela publicação do livro “Festas em Honra do Divino Espirito Santo”, uma fotomemória e compilação de textos que documentam facetas importantes desta devoção. É da autoria do Sr. José Lúcio Mendes, amigo de longa data e colaborador deste semanário.

Para todos, as nossas felicitações!

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