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A tragédia de Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, Góis, Sertã, Pampilhosa da Serra…

O País ficou de luto carregado perante tamanha tragédia naquele dia 17 de Junho de 2017.

O dia estava, como prometido, escaldante. As temperaturas ultrapassavam os 40 graus, a humidade não existia, o vento levantou-se muito forte e as toneladas de combustíveis, acumuladas ao logo de anos, estavam lá, o ordenamento florestal não estava, a ignição apareceu e o inferno instalou-se. Eram 14,43 quando o primeiro alerta foi dado para um foco de incêndio em Escalos Fundeiros. Passados 5 minutos estava lá uma viatura e 5 Bombeiros que de imediato pediram reforços. Ao fim de escassos minutos já lá estavam 34 Bombeiros, 9 viaturas e um meio aéreo. Mas os reforços continuaram. Mais uns minutos, 55 Bombeiros, 14 viaturas e dois meios aéreos. Passado pouco tempo já eram 78 Bombeiros, 20 viaturas e dois meios aéreos. O número de Bombeiros e o número de viaturas continuaram a aumentar, sempre com meios da região, até que terão começado a chegar reforços a nível nacional já que o pandemónio estava instalado.

Mas tudo isto porque as condições atmosféricas eram do pior e porque o combustível e o desordenamento, de que toda a gente fala, era o que mais havia. Caminhos não existiam e o fogo espalhava-se por todo o lado.

E a tragédia aconteceu ultrapassando os números negros do incêndio da Serra de Sintra de 1966, onde terão perdido a vida, pelos menos oficialmente, 25 militares, como ultrapassou a tragédia de Armamar de 1985 onde morreram 14 Bombeiros, a tragédia de Águeda de 1986 onde pereceram também 13 Bombeiros, a tragédia de 2003 que causou 20 mortos, o dia negro de 2006 da Guarda onde morreram 5 Bombeiros Chilenos e um Bombeiros dos BV de Gonçalo, o ano de 2012 em que também morreram seis pessoas, quatro das quais Bombeiros, o horror de2013 em que morreram nove pessoas, 8 Bombeiros e um civil, em condições mantidas ainda hoje em segredo – sabe-se lá porquê – e até a tragédia da Madeira do ano passado, onde também morreram três pessoas.

Neste caso em análise foram 64 pessoas que perderam a vida de forma trágica e inglória, de entre as quais um Bombeiro de Castanheira de Pêra, para além de centenas de feridos, muitos deles ainda internados, alguns ainda com prognóstico muito reservado, onde se incluem vários Bombeiros da região afectada.

Agora toda a gente fala, toda a gente opina e eu também não fui capaz de ficar calado. Foi mau de mais para ser verdade.

Mas os incêndios florestais não atacam só Portugal. Ainda ontem em Espanha mais de 50.000 pessoas ficaram isoladas, mais de 3.000 pessoas foram evacuadas de hotéis e de parques de campismo devido ao perigo de um monstruoso incêndio florestal.

Em Londres, recentemente, no principio deste mês de Junho, também perderam a vida 67 pessoas num incêndio urbano, numa torre de habitação social onde a maioria eram estrangeiros. Facilmente se concluiu que uma das razões daquela tragédia derivou do chamado economicismo nas obras de revestimento recente do prédio, feitas com materiais altamente combustíveis, da falta de sistemas de detecção e de alarme e também da falta de meios dos Bombeiros para prédios daquela altura. Mas entretanto já foram feitas inspecções a prédios semelhantes, onde foram detectados os mesmos materiais combustíveis, pelo que essas torres forram interditadas para habitação até que aqueles revestimentos sejam retirados e substituídos por materiais resistentes ao fogo.

Aqui não se pode encerrar o país até que o ordenamento florestal possa ser feito, porque isso chocaria com interesses inconfessáveis e, em boa verdade, não seria possível fazer com um simples estalar de dedos.

Mas algo terá que ser feito para que tragédias destas não se possam repetir. Há comissões, há estudos, há técnicos, há políticos, todos consternados certamente, que terão que se unir e falar a uma só voz para que possa começar a ser feito o que tem vindo a ser adiado desde há décadas, e é muito. Está tudo por fazer. Essa é que é essa. E tragédias destas podem vir a repetir-se, amanhã ou outro dia, noutro sitio qualquer. Como diz o ditado, vale mais prevenir do que remediar. Se houvesse prevenção nada disto acontecia.

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