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A “Brotéria” no Exílio (1)

No Colégio de S. Fiel, localizado na encosta meridional da Serra da Gardunha, freguesia de Louriçal do Campo, distrito de Castelo Branco, um grupo de padres da Companhia de Jesus desenvolveu, antes do eclodir da República, um trabalho de enorme valor na área das ciências naturais. A emérita instituição religiosa era também um reconhecido pólo de ensino e de cultura. Frequentado por largas centenas de alunos vindos das mais diversas regiões de Portugal e das colónias.

Foi neste ambiente de enorme devoção ao saber que três irmãos da Companhia de Jesus se uniram para criar uma revista científica, onde pudessem divulgar os seus importantes estudos. Criada em 1902, a revista “Brotéria” granjeou, desde o seu início, um benévolo e animador acolhimento por parte da comunidade científica nacional e estrangeira.

Entre os nomes dos seus fundadores consta o do ilustre torrejano Cândido de Azevedo Mendes (1874-1943), professor de ciências no Colégio de S. Fiel.

Investigador meticuloso e grande estudioso da fauna ibérica, Cândido Mendes destacou-se como um dos mais conceituados especialistas de lepidópteros a nível mundial. Na altura do 5 de Outubro de 1910, o ilustre torrejano, tinha recolhido para a sua colecção, “só nos arredores de S. Fiel, 800 espécies, entre as quais descobriu um género e 10 espécies novas que foram descritas na [revista] «Brotéria» “ (MENDES S.J., Cândido de Azevedo; “ A Brotéria no Exílio”, Suplemento à «Brotéria», Imprensa Ibérica, Madrid, Março-Abril de 1913, pág. 7).Pelo menos duas espécies de lepidópteros estão associadas ao seu nome: a Mendesia joannisiella e a Mendesia echiella.

A revolução de Outubro veio apanhar estes sábios de Deus desprevenidos. O lugar agreste e longínquo em que se erguia o Colégio de S. Fiel tinha-os distanciado dos olhares e das notícias do mundo. Ao invés, proporcionara-lhes uma maior acuidade e concentração no seu labor científico.

As notícias sobre a revolução chegavam ao Colégio de modo evasivo e com alguma apreensão por parte dos jesuítas. Os boatos sobre os tumultos na capital circulavam pelas vozes do povo das localidades vizinhas.

Na sexta-feira, dia 7 de Outubro, com base em notícias colhidas em Castelo Branco, o ir. Coadj. Luís Soares informava os seus correligionários do Colégio de S. Fiel, do triunfo dos republicanos na capital. Notícia confirmada, quase à mesma hora, pelo P. António Gonçalves que regressava no combóio do Porto. A segunda cidade do país também aderira ao novo regime. Pelo meio do seu relato, o ilustre jesuíta descreveu os insultos e agressões que sofreu, conjuntamente com outro membro da ordem, na estação do Entroncamento (AZEVEDO, Luís Gonzaga de; “ Proscritos”, 2ª parte, Tipografia, E. Daem, Bruxelas, 1914, pág. 15).

Estando ao corrente dos actos reprováveis ocorridos em Campolide e da perseguição feita aos jesuítas, a maior parte dos residentes do Colégio de S. Fiel dispersaram-se. Tentando colocar-se a salvo da horda de jacobinos e sectários que se preparavam para o ajuste de ódios antigos. No Colégio ficou um número reduzido de jesuítas na tentativa de salvaguardar as preciosas colecções dos seus investigadores. Entre eles, figurava o ilustre conterrâneo Cândido de Azevedo Mendes.

O contingente militar republicano chegaria no sábado, dia 8 de Outubro, ao Colégio de S. Fiel com a missão de defender as vidas dos padres e as suas propriedades. Só que esta primeira disposição foi contrariada por novas ordens, acabando os jesuítas por serem presos e despojados dos seus haveres. Para trás ficavam as preciosas colecções entregues ao acaso e às mãos de eventuais curiosos (op. cit.; págs. 23-27).

(Continua)

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