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Documentos pata a História do Concelho de Torres Novas – 4

Artur Gonçalves , que antes de vir para Torres Novas em 1914 ocupar o cargo de secretaria da Câmara Municipal de Torres Novas foi o primeiro investigador conhecido a dar valor aos fundos documentais torrejanos existentes no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. De facto, esses fundos são em número superior ao que existe no Arquivo Histórico Municipal de Torres Novas. Infelizmente, depois do 25 de Abril, os executivos municipais fizeram orelhas moucas às chamadas de atenção sobre a necessidade de inventariar, em relação ao concelho, tais fundos. Passados 43 anos, estamos na mesma. Não há, na edilidade, uma política de recolha e investigação do património concelhio, não existem fundos para esse fim, não existem técnicos responsabilizados para essa tarefa, crucial para o conhecimento do papel da vila e do concelho na vida dos pais.

Após a reforma da Torre do Tombo, ficou à disposição do país, numa série de livros, os inventários das suas colecções, que deveriam fazer parte da biblioteca essencial de qualquer arquivo histórico que se preze.. Nas últimas décadas também o seu esforço de digitalização documental tem sido notável e tornou-se possível o acesso a parte dessa múltipla e complexa documentação, através dum simples portal da internet.

Escrevo estes apontamentos sem grandes ilusões, no presente, dos intervenientes políticos autárquicos compreenderem quanto o conhecimento do passado é importante para a estratégia do futuro.

De toda a documentação, falaremos neste artigo duma excepcionalmente importante para o conhecimento do devir concelhio através dos séculos, na sua estrutura familiar, social, económica e política, no que dela se manteve e transformou ao longo do tempo, desde Antigo Regime à Época Contemporânea. Refiro-me aos registos paroquiais, que surgem a partir do século XVI, como meios dum numeramento das famílias e sua composição, por múltiplos interesses que uma sociedade de raiz mercantil exige: demográficos, régios, militares, religiosos, fiscais. O poder real e a igreja conciliam os seus interesse de domínio das terras, dos corpo e das almas, através dos registos, que ficam nas mãos do clero, em Portugal, até ao século XX. Deixaremos para outro artigo, a documentação sobre as freguesiasrurais, dedicando-nos, hoje às quatro freguesias semi-urbanas que constituem a vila de Torres Novas[1]

Os registos paroquiais, que se desenvolvem e tomam forma unitária, a partir do século XVI, como expressão manifestada da necessidade de conhecer quantitativamente a estrutura social e demográfica onde as igrejas se inserem, levaram à criação de três tipos de registos, que definiam, na sua escrita, o ciclo da vida de cada ser humano, numa sociedade cristã: o Baptismo, o Casamento e a Morte. Nos primeiros tempos, pela falta de livros próprios de registo, usava-se um, para todas essas finalidades: os livros mistos. Mas a complexidade do Portugal dos Descobrimentos, o peso da mudança de local motivado pelas armadas, o tráfico, a posse colonial do Norte de África, do domínio do Oriente e do povoamento e governo do Brasil, conduzem a um registo triplo permissor do conhecimento do número de famílias por freguesia, da sua composição, das suas mudanças, das interrelações com outras através dos casamentos, das suas mudanças e continuidade, através dos óbitos. A quantificação social transforma -se na regra básica das estruturas sociais do antigo regime.

No século XVi , com o Concílio de Trento, a estrutura religiosa da vila obedece ao ritmo do tempo religioso, controlado pelas quatro freguesias paroquiais, e nos limites, no início do arrabalde, pelo influência dos três conventos : Carmo, Espírito Santo, Santo António.

Registos paroquiais das quatro freguesias da vila

Igrejas

Mistos

Baptismos

Casamentos

Óbitos

Nº Livros

S. Salvador

1531-155o

1657-1689

1657-1741

1657 -1740

207

S. Maria

1585-1631

1702 -1723

1702-1738

1702-1738

174

S. Pedro

1545-1570

1639-1677

1661-1744

1543 -1638

171

Santiago

1531-1567

1575-1587

1686-1704

1683 -1706

212

Como atrás se disse, Artur Gonçalves é o primeiro investigador da história concelhia a consultar a parte inicial destes registos, tendo publicado sobre os mesmos, de todo o concelho, um curto capítulo nas Memórias de Torres Novas.[2]Publicou vários artigos sobre os registos paroquiam das freguesias da vila, na década de XX, no semanário O Almonda.

Mas, além destes registos, outros há, que importa inventariar e investigar, nas Livrarias das próprias Igrejas, sendo a de maior importância a de S. Salvador. A de Santiago é desolador, de S. Pedro pouco se sabe, de Santa Maria, idem, com uma ressalva. Na Torre do Tombo, em Confrarias – Irmandades – Mordomias, além de dois livros de confessados da Igreja do Salvador (1761-1767), ( 1797/1805), um importante documento datado de 90 folhas , 364 entradas, sobre «todos os livros e sentenças, escrituras e mais títulos que existia no archivo da igreja de santa Maria no tempo em que foi removido para o juízo da Provedoria por avizo da Secretaria de estado dos Negocios do Reyno datado de 24 de Maio de 1791».

Também no Desembargo do Paço – Estremadura, datado de 1777, do reinado de D: Maria, um levantamento dos bens das igrejas e confrarias então existentes no concelho, os bens pertencentes às respectivas igrejas paroquiais.[3]

Outra documentação, praticamente desconhecida, deve ser procurada nos arquivos do Patriarcado de Lisboa, que deveria merecer o respectivo levantamento e investigação.

De S. Pedro, pouco nos chegou. Encontramos alguma informação, principalmente no Arquivo da Misericórdia local.

Creio que fica demonstrado que os registos paroquiais merecem, pelo que permitem no universo da investigação, o interesse de futuros estudiosos da história concelhia.


[1] Almeida, Fortunato de, História da Igreja de Portugal,vol IV, Apêndice XVII, num catálogo de tosas as igrejas de Portugal referentes aos ans de 1320 e 1321, Já indica cinco paróquias concelhias, quatro na vila, S. Salvador, S. Maria, S.Pedro e Santiago e a de Santa Maria da Serra (Alqueidão).

[2] Gonçalves, cit., capítulo XX.227/229.

[3] IANTT,m Desembargo do paço, Estremadura, Maço 2029, Doc. nº2.

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