Home > Colaboradores > Vítor Antunes > Cartas da Prisão (1)

Cartas da Prisão (1)

Mais um ano nos separa da data em que a esperança entrou na vida do nosso povo. Abril será sempre recordado como o mês em que os grilhões da opressão foram derrubados.

Mas quantas lágrimas e sofrimentos tiveram os nossos resistentes anti-fascistas de pagar para que Abril florescesse? Quantos incomensuráveis sacrifícios se propuseram a abraçar na esperança de que um dia raiasse a aurora da liberdade?

Respostas obnubiladas pela sombra do impiedoso tempo presente. Adverso à solidariedade e à utopia!

Muitos ignoram que um dia, não muito distante, as prisões serviram para enclausurar inocentes. Cujo único crime foi o de lutarem contra a opressão e as injustiças sociais.

Histórias guardadas na memória de alguns ostracizados sobreviventes ou nas folhas manuscritas dos que já partiram. Libertos da vida com a certeza do dever cumprindo.

Torres Novas espera pela publicação dos dilacerantes testemunhos dos seus filhos anti-fascistas! Até lá, cabe-nos entreabrir, neste singelo espaço, essa ignorada porta com a divulgação de passagens de cartas inéditas de um herói da resistência torrejana: Dr. Francisco Canais Rocha (1930-2014). Tarefa facilitada pelo facto de Joaquim Canais Rocha ter guardado religiosamente a correspondência do seu irmão, referente aos anos suportados na Fortaleza de Peniche.

Estabelecimento prisional de má memória. Um local sombrio, tipo campo de concentração. Como refere Amílcar Gomes Duarte no seu livro “ A Resistência em Portugal” (1962):

“ As cadeias para presos políticos têm sofrido nos últimos anos muitas modificações. Instaladas em antiquíssimas prisões (…) ou em velhos fortes militares, como os de Caxias e Peniche, foram remodelados de modo a perderem exteriormente o aspecto soturno e sombrio que impressionava a imaginação do povo, despertando-lhe compaixão (…).

Hoje essas prisões apresentam por fora um ar aparentemente mais higiénico, mas o verdadeiro objectivo foi agravar a situação dos presos, impossibilitar-lhe mais ainda o contacto com as famílias, e principalmente isolá-los uns dos outros e do exterior. De fora não se vêem as grades, como por exemplo em Caxias e em Peniche, onde as fortes barras de ferro passaram para o interior das janelas, o que impede os presos de abri-las e os priva de olhar o exterior e apanharem uma réstia de sol, consolação que dantes podiam usufruir. Com a sua hipocrisia característica, o nosso fascismo esconde as grades – de fora não se vêem, mas o preso sente-as mais (…).

Todas as cadeias políticas, mesmo a Fortaleza de Peniche que pertence nominalmente ao Ministério da Justiça, estão na prática sob o domínio da P.I.D.E. (…).

A Fortaleza de Peniche é actualmente um verdadeiro campo de concentração nazi, onde uma equipa de pessoal seleccionado e bestializado, mantém uma ordem de ferro, ao som do apito. Tudo está regulado e regrado a apitos.

Tem vários andares de celas individuais onde os presos, contra o que diz a Reforma Prisional, não podem conviver uns com os outros. As celas têm ferrolhos duplos automáticos e o preso pode ser constantemente vigiado do corredor por um «olho de Judas».

Nas salas onde estão em comum, ou se mantém permanentemente um guarda, ou têm portas com grossas grades e vidraças que permitem uma vigilância constante a todos os recantos da sala [imagem do Panóptico].

As visitas, até há pouco em comum, realizam-se presentemente num compartimento construído para esse efeito, e onde as famílias estão separadas dos presos por um largo balcão de cimento dividido ao meio por um vidro alto. Nem os filhos podem beijar os pais. Há um total desprezo pelos mais elementares sentimentos de humanidade com o propósito de humilhar e tentar despersonalizar os presos políticos (…).

A Fortaleza de Peniche é actualmente a cadeia onde os métodos fascistas estão mais refinados” (DUARTE, Amílcar Gomes; “A Resistência em Portugal- Crónicas”, Editora Felman-Rego, São Paulo, 1962, págs. 126-134).

O conjunto de cartas enviadas da cadeia de Peniche – a que tivemos acesso por gentileza do nosso prezado amigo, Joaquim Canais Rocha – abrangem os primeiros tempos da década de setenta. Pertencem ao lote de missivas ligadas à segunda prisão de Francisco Canais Rocha. Ocorrida a 20 de Agosto de 1968.

Uma das regras basilares da censura consistiu na proibição de os prisioneiros, na sua correspondência, fazerem quaisquer referências à política ou às suas condições na cadeia. Só de forma velada é que os detidos conseguiam passar pelo crivo da censura alguns pormenores sobre a situação em que se encontravam. Quase sempre as cartas tratavam de informações e perguntas relativas aos familiares. Ou, no caso do ilustre torrejano, pedidos de livros e comentários à actividade cultural. Nomeadamente do Cine-clube de Torres Novas, que ajudou a fundar.

Por vezes encontramos referências a um seu companheiro de luta. Como na carta escrita a seu irmão, no mês de Outubro de 1970. Em que Francisco Canais Rocha retribui com alguma ironia a lembrança por parte de um seu amigo: “ Obrigado pelo cumprimento do “Gaivoto”, mas, quando for assim, diz-lhe que eu não me governo só com cumprimentos. Podem juntar aos mesmos mais alguma coisa, como por exemplo, tabaco, pois fumo todos os dias! E isto não serve só para ele. Serve também para a família, que manda cumprimentos e saudades, e para os amigos” (Peniche,22/10/1970).

(Continua)

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook