Home > Colaboradores > Vítor Antunes > Propaganda vexatória nas Eleições de 1958 (2)

Propaganda vexatória nas Eleições de 1958 (2)

Em nenhuma das linhas do folheto transparece uma análise autónoma e objectiva da campanha do ilustre torrejano. Onde estão as imagens e os comentários, por parte do autor do texto, à apoteótica recepção de Humberto Delgado na cidade do Porto? Ou, também, da chegada a Santa Apolónia, onde a polícia, fazendo uso da violência, tentou coarctar o apoio da imensa multidão que o aguardava no seu trajecto até à sede de candidatura, na Avenida da Liberdade?

Percebe-se claramente que o mote da brochura não vai além do mero achincalhamento da pessoa do ilustre torrejano.

O comentário final à última fotografia, tirada na manifestação em Aveiro, faz, antecipadamente, o prognóstico do resultado das viciadas eleições: “ A vibrante cena do abraço da juventude, também chamada cena dos berros. Veja-se o riso triunfante que se estampa no rosto do «Homem sem Medo» e a bela expressão do seu «partner». Mas, apesar da sua magnífica interpretação, tudo indica que o grande Humberto não apanha o «Óscar» ” (“ As Aventuras do «Homem sem Medo» …”, pág.6).

A campanha difamatória, ao nível dos folhetos, não se limitou a estes exemplos. Encontramos a mesma linha persecutória em duas pequenas brochuras, com notas sobre a vida e obra do general. No simples propósito de vilipendiar o seu bom nome perante a opinião pública.

O primeiro texto, com o título “ O Candidato Independente General Humberto Delgado – Notas da sua vida e obra” (Maio de 1958), o autor recorre a muitas citações proferidas por Humberto Delgado, extraídas do seu primeiro livro “ A Pulhice do «Homo Sapiens» ”, publicado em 1933. Obra de juventude marcada pelo espírito irreverente e desassombrado de Delgado. O ilustre torrejano escreveu o livro sob o clima de entusiasmo e enormes expectativas criadas em torno golpe de Estado de 28 de Maio de 1926. Que veio a soçobrar numa feroz ditadura, chefiada pelo antigo ministro das finanças, Dr. Oliveira Salazar.

As passagens de Humberto Delgado pelos Estados Unidos (por este facto, nas eleições, apelidaram-no de cowboy) e pelo Canadá ajudaram-no a ter uma visão diferente da política nacional e do povo português. A imagem do estadista, que anteriormente tinha enaltecido, apresentava-se, na altura em que se candidatou às eleições presidenciais, como a de um sombrio e caquéctico ditador. Responsável por trair e relegar o seu povo para a cauda da Europa.

Pormenor ignorado pelo autor do folheto que recusa a ideia de Humberto Delgado evoluir para a adopção dos princípios e ideais democráticos. Não conseguindo fazer a distinção entre o jovem entusiasta da revolução de 28 de Maio e o experiente homem de meia-idade. Conhecedor, «in loco», das virtudes e defeitos dos diversos regimes políticos mundiais.

Os excessos verbalizados por Humberto Delgado, no seu primeiro e truculento livro, servem de arma de arremesso, por parte do defensor do Estado Novo, para dar a ideia do ilustre torrejano como um homem cheio de contradições e de pouca confiança. Reforçando este ponto com a apresentação, na penúltima página, da dedicatória do General a Salazar no seu pequeno livro – “Aviação, Exército, Marinha, Legião” (1937). Outra obra, do ilustre torrejano, datada no tempo.

Como comentário final, o autor do folheto apela ao voto no candidato Almirante Américo Tomás. Em “cuja vida e obra” (na sua discutível opinião) reflectia “uma cabal demonstração de coerência, de aprumo e de civismo, tanto nas palavras como nos actos” (op. cit., pág. 20).

A segunda brochura biográfica está assinada por José A. Assunção e denomina-se “Auto-retrato de Humberto Delgado” (1958).

Mais uma vez assistimos ao recurso do «infeliz» primeiro livro do ilustre torrejano. Recorrendo a expressões do, à época, jovem tenente, José Assunção procura fazer um auto-retrato do ilustre torrejano, para daí induzir o leitor a não o levarem a sério. Campanha em que utilizou subtilmente citações da primeira obra de Humberto Delgado, sem atender ao contexto em que foram proferidas. Ou aos novos e sãos ideais defendidos pelo então general.

O autor do texto não viu com bons olhos a passagem de Humberto Delgado pelo estrangeiro e do seu papel na cedência da base das Lages, nos Açores, às forças britânicas. Em vez de enaltecer o seu papel nas negociações internacionais e defesa dos interesses de Portugal no mundo, cai na ridícula afirmação de considerá-lo um estrangeirado, inimigo da Nação. As últimas linhas do corrosivo texto terminam com estas invectivas:

“Fantástico, senhor general!

Português internacional!

OURO AMERICANO…!

Temos dito.

Que mais era preciso? (op. cit., pág. 24)

Estes pequenos exemplos, retirados de folhetos ligados à propaganda do Estado Novo, ilustram os múltiplos insultos e obstáculos que se deparam ao ilustre torrejano na sua difícil e perigosa caminhada, nas eleições presidenciais de 1958. Que culminariam com o bárbaro e hediondo assassinato de Humberto Delgado às mãos dos verdugos do fascismo. Ocorrido no trágico dia 13 de Fevereiro de 1965.

O ditador de Santa Comba Dão nunca lhe perdoou a inusitada desfaçatez de o enfrentar.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook