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Propaganda Vexatória nas Eleições de 1958 (1)

Se quisermos referenciar um dos momentos mais importantes que preparam a emergência da democracia em Portugal temos que aludir, obrigatoriamente, às eleições presidenciais acontecidas em 1958. Onde, pela primeira vez, um candidato teve a corajosa iniciativa de desafiar o regime totalitário vigente. Conseguindo, desta forma, arrancar o povo da sua profunda letargia. Fruto de várias décadas de opressão e obscurantismo.

Ao ilustre torrejano Humberto Delgado (1906-1965) coube o papel de ser o rosto principal da oposição nas eleições de 58. Numa campanha em que a máquina de propaganda fascista recorreu a todos os meios e embustes para o denegrir e vexar. Tentando manchar a bem sucedida carreira e o impoluto carácter do, então, mais jovem general português.

O próprio Humberto Delgado estava ciente das enormes dificuldades e barreiras intransponíveis que teria de enfrentar. Tanto no período pré- eleitoral como na sua acidentada caminhada até às urnas. (DELGADO, Humberto; “ Memórias”, Edições Delfos, 1974, págs. 155-169).

Precavendo-se do perigo de uma vitória do general, a máquina de propaganda fascista preparava-se nas eleições para desferir um ataque soez ao carácter do ilustre torrejano. Empresa facilitada pelo conluio da maior parte dos órgãos de informação. Que não se coibiram de transmitir aleivosias e falsos testemunhos aos seu leitores e ouvintes, a propósito de Humberto Delgado.

A campanha de difamação estendeu-se até aos simples panfletos e folhetos que foram distribuídos durante as eleições. Confundindo-se alguns, à primeira vista, com os que eram provenientes da sede da candidatura do general. Caso do postal em que Humberto Delgado surge como “Candidato Nacional à Presidência da República”. Os dois postais são idênticos no rosto. Mas na parte detrás há enormes diferenças: o da candidatura do ilustre torrejano tem um texto da sua autoria em que acentua a necessidade do povo português recuperar legitimamente a sua liberdade e cidadania. O outro apresenta um texto – supostamente da lavra de Humberto Delgado- em tons insidiosos, fazendo passar a ideia do general como alguém sem controlo que “deixaria a Nação entregue à devastação terrível do comunismo”.

Os estratagemas da propaganda fascista chegaram ao ponto de ridicularizar num folheto as manifestações de apoio à candidatura do general, ocorridas em vários pontos do país. Considerando a sua digressão como um enorme fracasso. Já que, segundo as vozes do regime, o número de apoiantes de Humberto Delgado reduzir-se-ia a uma escassa dezena de adeptos.

O folheto em causa intitula-se “As Aventuras do «Homem sem Medo» – Grande fita em episódios”. Servindo-se de uma escrita vexatória o autor ridiculariza as digressões de Humberto Delgado pelas localidades de Vila Real, Mirandela e Aveiro. Apresentando-o como o principal actor da comédia eleitoral montada pelos seus principais colaboradores.

O folheto, desde a sua primeira linha até ao final, está cheio de invectivas à pessoa e à campanha eleitoral do ilustre torrejano. Como exemplos deste tipo de linguagem vexatória, podemos citar os comentários do autor do texto à primeira e a terceira fotografias do folheto, tiradas na localidade de Vila Real, que passamos a transcrever:

“ 1- Três atitudes típicas do «Homem sem Medo», émulo do Zorro, do Tom Mix e do Barrabás. Ele aí está, de pé, em cima das traseiras dum grande espada, rodeado pelos seus «fans» que logo à primeira vista se identificam com o escol da juventude cinéfila. A linda gravata foi comprada em Nova Iorque, assim como o fino lenço de cambraia com a inicial H bordada em tom escuro, moda que ele anda a lançar na Província (…).

3- O «Homem sem Medo» abre os braços, triunfante, parecendo exclamar: – Deixai vir a mim todos os cidadãos de todas as idades, que eu cá, como estou demonstrando a Vila Real, sou um tipo bestial! Como vêem, não tenho medo de subir para as traseiras de um automóvel, nem de me expor à sofreguidão dos meus admiradores. Isso de reclamar a polícia para que os meus «fans» me não arranquem os botões do paletó, me não palmem o lenço ou cortem a gravata, é bom para a Lollobrigida, para a [Sophia] Loren e para a B. B. [Brigite Bardot]. Eu cá não tenho medo de nada. Nem mesmo do ridículo!…” (“As Aventuras…”, pág. 2).

(Continua)

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